Papa batiza 20 crianças: a fé é um bem essencial para a vida

janeiro 13, 2026 / no comments

Papa batiza 20 crianças: a fé é um bem essencial para a vida

 

Na manhã deste domingo, 11 de janeiro, a Capela Sistina, conhecida pelos afrescos de Michelangelo e por sua relevância singular na história da Igreja, acolheu familiares e fiéis reunidos para a tradicional celebração por ocasião da Festa do Batismo do Senhor. Durante a Missa, 20 crianças, filhos de funcionários do Vaticano, receberam o sacramento da iniciação cristã.

Esta foi a primeira vez que Leão XIV presidiu esta celebração como Papa. A tradição teve início em 1981, com São João Paulo II, e foi continuada por Bento XVI e pelo Papa Francisco. A única diferença nos primeiros anos foi o local: em 1981 e 1982, os batismos ocorreram na Capela Paulina; a partir de 1983, passaram a ser realizados na Capela Sistina.

O Batismo, encontro com a misericórdia de Deus

Na homilia, o Papa destacou o significado do Batismo de Jesus como um gesto de proximidade e de amor de Deus pela humanidade. “Quando o Senhor entra na história, vem ao encontro da vida de cada um com coração aberto e humilde”, afirmou, ressaltando que Cristo se faz presente onde menos se espera, assumindo plenamente a condição humana.

Ao recordar o diálogo entre Jesus e João Batista, o Pontífice explicou que o Batismo do Senhor revela a justiça de Deus, que salva e justifica pela misericórdia: “A de Deus, que no batismo de Jesus realiza a nossa justificação: na sua infinita misericórdia, o Pai torna-nos justos por meio do seu Cristo, o único Salvador de todos”. Dirigindo o olhar às crianças que seriam batizadas, Leão XIV ressaltou que o sacramento é dom gratuito do amor divino:

“Eis o Sacramento que celebramos hoje com estas crianças: porque Deus as ama, elas tornam-se cristãs, nossos irmãos e irmãs.”

A fé, dom essencial para a vida

Falando aos pais e mães, o Papa destacou a responsabilidade e a beleza de transmitir a fé aos filhos desde o início da vida. “Assim como receberam a vida de vocês, pais e mães, eles recebem agora o sentido para a viver: a fé”, disse, comparando a fé aos cuidados essenciais que ninguém deixaria de oferecer a um recém-nascido.

“Se comida e vestuário são necessários para viver, a fé é mais do que necessária, porque com Deus a vida encontra a salvação.”

Sinais que acompanham todo cristão

O Papa também recordou o valor simbólico dos gestos do rito batismal, que acompanham o cristão por toda a vida: a água, a veste branca e a vela acesa. “A água da fonte é o lavacro no Espírito, que purifica de todos os pecados; a veste branca é o traje novo que Deus Pai nos dá para a festa eterna do seu Reino; a vela acesa no Círio pascal é a luz de Cristo ressuscitado, que ilumina o nosso caminho”.

Ao concluir, Leão XIV desejou que o Batismo fortaleça os laços familiares e a caminhada de fé: “O Batismo, que nos une na única família da Igreja, santifique sempre todas as suas famílias, dando força e constância ao afeto que as une”.

Fonte: Vatican News
Foto: Vatican Media

Papa: “A guerra voltou a estar na moda”. É preciso reforçar o multilateralismo

janeiro 9, 2026 / no comments

Papa: “A guerra voltou a estar na moda”. É preciso reforçar o multilateralismo

 

 

Realizou-se na manhã desta sexta-feira, 9 de janeiro, uma das audiências mais importantes do ano. Tradicionalmente, ao receber o Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, o Papa faz uma análise da conjuntura internacional, passando em resenha os principais fatos que marcaram os últimos meses. E assim foi para Leão XIV, que pessoalmente viveu o encontro como uma “novidade”, por ser sua primeira vez com os diplomatas de 184 países e organizações internacionais.

O Santo Padre começou recordando o Jubileu recém-concluído e a morte do seu predecessor, o Papa Francisco: “No dia do funeral, o mundo inteiro se reuniu em torno do seu caixão, sentindo a perda de um pai que guiou o Povo de Deus com profunda caridade pastoral”. Outro evento eclesial de destaque foi a viagem à Turquia e ao Líbano, pela qual o Papa agradeceu às autoridades de ambos os países pelo acolhimento.

Ao partilhar a sua visão sobre este tempo “tão conturbado por um número crescente de tensões e conflitos”, o Pontífice se deixou guiar pela grande obra de Santo Agostinho De Civitate Dei, “A Cidade de Deus”. O livro não propõe um programa político, mas alerta para os graves perigos decorrentes de falsas representações da história, de um nacionalismo excessivo e da distorção do ideal do estadista. Para Leão XIV, certas semelhanças permanecem bastante atuais, como os movimentos migratórios e a reestruturação dos equilíbrios geopolíticos e dos paradigmas culturais.

“Neste nosso tempo, preocupa particularmente a fragilidade do multilateralismo no plano internacional. Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso de todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou de grupos de aliados. A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está se alastrando. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias.”

A importância da ONU e da defesa dos direitos humanos fundamentais

Hoje, analisou o Papa, não se procura a paz como um dom de Deus, mas através das armas, como condição para afirmar o próprio domínio, comprometendo gravemente o Estado de direito. O Pontífice recordou que a Organização das Nações Unidas foi criada 80 anos atrás tendo como eixo justamente a cooperação multilateral para salvaguardar a paz e defender os direitos humanos fundamentais.

A propósito do direito internacional humanitário, Leão XI recordou que deve sempre prevalecer sobre as veleidades dos beligerantes: “A Santa Sé reitera com firmeza a sua condenação de qualquer forma de envolvimento de civis em operações militares”.

Sobre o direito de expressão, reforçou a necessidade do diálogo, mas advertiu para o uso e o significado das palavras, cada vez mais utilizadas como uma arma com a qual se engana, se atinge e ofende os adversários, seja na política, seja nas redes sociais.

Ainda sobre a linguagem, o Santo Padre manifestou sua preocupação com o desenvolvimento de uma nova linguagem, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, “acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam”.

A crescente perseguição aos cristãos

O Papa Leão falou ainda da liberdade de consciência, sobretudo na rejeição de práticas como o aborto ou a eutanásia, e da liberdade religiosa, pedindo “total respeito” de culto para os cristãos e para todas as outras comunidades religiosas. A propósito, condenou mais uma vez com veemência o antissemitismo.

O Pontífice lamentou a crescente perseguição aos cristãos, que afeta mais de 380 milhões de fiéis em todo o mundo, ou seja, um em cada sete. E citou países como Bangladesh, Nigéria, Síria e Moçambique. Já na Europa ou nas Américas, verifica-se uma forma sutil de discriminação por razões políticas ou ideológicas, especialmente quando se defende a dignidade dos mais frágeis.

Nesta categoria, o Papa incluiu os migrantes, pedindo ações contra a ilegalidade e o tráfico de seres humanos, e os detentos, renovando o chamado pela abolição da pena de morte.

Leão XIV discursou ainda a favor da família e do matrimônio, como união exclusiva e indissolúvel entre a mulher e o homem. E condenou o chamado “direito ao aborto seguro” e a gravidez de substituição, transformando-a num serviço comercializado. Semelhantes considerações podem ser estendidas aos doentes e às pessoas idosas e sozinhas, e aos jovens, mais expostos à toxicodependência.

Respeitar a vontade do povo venezuelano

Diante de um verdadeiro “curto-circuito” dos direitos humanos, Leão XIV mencionou novamente Santo Agostinho para reivindicar o “direito de cidadania” à cidade de Deus. “Na ausência de um fundamento transcendente e objetivo, prevalece apenas o amor a si mesmo”, afirmou o Santo Padre, que ofusca a empatia para com o próximo.

É o que se constata no prolongamento da guerra na Ucrânia e na Terra Santa, com enorme sofrimento infligido à população civil. No primeiro caso, o Papa reafirmou a urgência de um cessar-fogo imediato. No segundo, a solução de dois Estados para responder às legítimas aspirações de ambos os povos.

No continente americano, Leão XIV manifestou preocupação com as tensões no Mar do Caribe, ao longo da costa americana do Pacífico e no Haiti. E sobre a  Venezuela, afirmou:

“Renovo o apelo ao respeito pela vontade do povo venezuelano e ao empenho na defesa dos direitos humanos e civis de todos e na construção de um futuro de estabilidade e concórdia, haurindo inspiração no exemplo dos seus dois filhos que tive a alegria de canonizar em outubro passado, José Gregorio Hernández e Irmã Carmen Rendiles, a fim de construir uma sociedade baseada na justiça, na verdade, na liberdade e na fraternidade, e assim superar a grave crise que há muitos anos aflige o país.”

No panorama mundial, o Pontífice falou das crises em Mianmar e na região africana dos Grandes Lagos, no Sudão e Sudão do Sul.

O perigo do aumento dos arsenais nucleares e a IA

Além de fronteiras geográficas, a paz também está ameaçada pela existência de arsenais nucleares. A propósito, o Papa Leão apontou para a importância de dar seguimento ao Tratado New START, que termina em fevereiro próximo. “O perigo é que o sonho seja o da corrida a produzir novas armas cada vez mais sofisticadas”, disse o Papa, incluindo neste tópico o desafio da inteligência artificial, ferramenta que também requer uma gestão adequada e ética.

Leão XIV concluiu seu discurso em tom esperançoso, pois mesmo diante deste quadro dramático, a paz continua possível. Exige humildade e coragem: “A humildade da verdade e a coragem do perdão”.

Para finalizar, citou São Francisco de Assis, cuja morte completará 800 anos no próximo mês de outubro: “A sua vida é luminosa porque foi animada pela coragem da verdade e pela consciência de que um mundo pacífico se constrói a partir de um coração humilde, voltado para a cidade celestial. Um coração humilde e construtor de paz é o que desejo a cada um de nós e a todos os habitantes dos nossos países no início deste novo ano. Obrigado!”.

Fonte: Vatican News