Papa Leão XIV recebe Cardeal Orani João Tempesta em audiência privada no Vaticano

janeiro 24, 2026 / no comments

Papa Leão XIV recebe Cardeal Orani João Tempesta em audiência privada no Vaticano

 

O Papa Leão XIV recebeu em audiência privada o Cardeal Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, na manhã desta quarta-feira, no Vaticano. O encontro aconteceu às vésperas da celebração dos 200 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé, marco histórico que será recordado oficialmente nesta quinta-feira (22).

A audiência, realizada de forma reservada, teve duração aproximada de 20 minutos e transcorreu em clima de comunhão, fraternidade e partilha pastoral. Durante o encontro, o Cardeal Orani apresentou ao Santo Padre aspectos da vivência de fé do povo carioca, com destaque para a Trezena de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro. O arcebispo sublinhou o testemunho de fé, coragem e fidelidade cristã do santo mártir, profundamente enraizado na vida religiosa e cultural da cidade.

Na conversa, também foi abordado o segundo Sínodo Arquidiocesano do Rio de Janeiro, com atenção especial à dimensão missionária da Igreja, ao trabalho evangelizador e às iniciativas pastorais desenvolvidas no contexto da Trezena de São Sebastião. As ações, segundo o cardeal, mobilizam comunidades, paróquias e fiéis em espírito de missão e corresponsabilidade eclesial.

Ao final da audiência, o Cardeal Orani assegurou ao Papa Leão XIV as orações do povo da Arquidiocese do Rio de Janeiro por suas intenções, pelo ministério petrino e pela missão confiada ao Santo Padre à frente da Igreja. Em resposta, o Papa manifestou sua proximidade espiritual, afirmando que reza pelo povo do Rio de Janeiro e concedendo uma bênção especial a todos os fiéis, como sinal de unidade, comunhão e esperança.

O encontro ocorre no contexto das comemorações oficiais dos 200 anos das relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé, que reafirmam os laços históricos de diálogo, cooperação e respeito mútuo entre o Estado brasileiro e a Igreja Católica. A audiência entre o Papa Leão XIV e o Cardeal Orani João Tempesta reforça a importância da comunhão eclesial e da missão evangelizadora, evidenciando a proximidade do Sucessor de Pedro com o povo brasileiro.

Papa: “A guerra voltou a estar na moda”. É preciso reforçar o multilateralismo

janeiro 9, 2026 / no comments

Papa: “A guerra voltou a estar na moda”. É preciso reforçar o multilateralismo

 

 

Realizou-se na manhã desta sexta-feira, 9 de janeiro, uma das audiências mais importantes do ano. Tradicionalmente, ao receber o Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, o Papa faz uma análise da conjuntura internacional, passando em resenha os principais fatos que marcaram os últimos meses. E assim foi para Leão XIV, que pessoalmente viveu o encontro como uma “novidade”, por ser sua primeira vez com os diplomatas de 184 países e organizações internacionais.

O Santo Padre começou recordando o Jubileu recém-concluído e a morte do seu predecessor, o Papa Francisco: “No dia do funeral, o mundo inteiro se reuniu em torno do seu caixão, sentindo a perda de um pai que guiou o Povo de Deus com profunda caridade pastoral”. Outro evento eclesial de destaque foi a viagem à Turquia e ao Líbano, pela qual o Papa agradeceu às autoridades de ambos os países pelo acolhimento.

Ao partilhar a sua visão sobre este tempo “tão conturbado por um número crescente de tensões e conflitos”, o Pontífice se deixou guiar pela grande obra de Santo Agostinho De Civitate Dei, “A Cidade de Deus”. O livro não propõe um programa político, mas alerta para os graves perigos decorrentes de falsas representações da história, de um nacionalismo excessivo e da distorção do ideal do estadista. Para Leão XIV, certas semelhanças permanecem bastante atuais, como os movimentos migratórios e a reestruturação dos equilíbrios geopolíticos e dos paradigmas culturais.

“Neste nosso tempo, preocupa particularmente a fragilidade do multilateralismo no plano internacional. Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso de todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou de grupos de aliados. A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está se alastrando. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias.”

A importância da ONU e da defesa dos direitos humanos fundamentais

Hoje, analisou o Papa, não se procura a paz como um dom de Deus, mas através das armas, como condição para afirmar o próprio domínio, comprometendo gravemente o Estado de direito. O Pontífice recordou que a Organização das Nações Unidas foi criada 80 anos atrás tendo como eixo justamente a cooperação multilateral para salvaguardar a paz e defender os direitos humanos fundamentais.

A propósito do direito internacional humanitário, Leão XI recordou que deve sempre prevalecer sobre as veleidades dos beligerantes: “A Santa Sé reitera com firmeza a sua condenação de qualquer forma de envolvimento de civis em operações militares”.

Sobre o direito de expressão, reforçou a necessidade do diálogo, mas advertiu para o uso e o significado das palavras, cada vez mais utilizadas como uma arma com a qual se engana, se atinge e ofende os adversários, seja na política, seja nas redes sociais.

Ainda sobre a linguagem, o Santo Padre manifestou sua preocupação com o desenvolvimento de uma nova linguagem, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, “acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam”.

A crescente perseguição aos cristãos

O Papa Leão falou ainda da liberdade de consciência, sobretudo na rejeição de práticas como o aborto ou a eutanásia, e da liberdade religiosa, pedindo “total respeito” de culto para os cristãos e para todas as outras comunidades religiosas. A propósito, condenou mais uma vez com veemência o antissemitismo.

O Pontífice lamentou a crescente perseguição aos cristãos, que afeta mais de 380 milhões de fiéis em todo o mundo, ou seja, um em cada sete. E citou países como Bangladesh, Nigéria, Síria e Moçambique. Já na Europa ou nas Américas, verifica-se uma forma sutil de discriminação por razões políticas ou ideológicas, especialmente quando se defende a dignidade dos mais frágeis.

Nesta categoria, o Papa incluiu os migrantes, pedindo ações contra a ilegalidade e o tráfico de seres humanos, e os detentos, renovando o chamado pela abolição da pena de morte.

Leão XIV discursou ainda a favor da família e do matrimônio, como união exclusiva e indissolúvel entre a mulher e o homem. E condenou o chamado “direito ao aborto seguro” e a gravidez de substituição, transformando-a num serviço comercializado. Semelhantes considerações podem ser estendidas aos doentes e às pessoas idosas e sozinhas, e aos jovens, mais expostos à toxicodependência.

Respeitar a vontade do povo venezuelano

Diante de um verdadeiro “curto-circuito” dos direitos humanos, Leão XIV mencionou novamente Santo Agostinho para reivindicar o “direito de cidadania” à cidade de Deus. “Na ausência de um fundamento transcendente e objetivo, prevalece apenas o amor a si mesmo”, afirmou o Santo Padre, que ofusca a empatia para com o próximo.

É o que se constata no prolongamento da guerra na Ucrânia e na Terra Santa, com enorme sofrimento infligido à população civil. No primeiro caso, o Papa reafirmou a urgência de um cessar-fogo imediato. No segundo, a solução de dois Estados para responder às legítimas aspirações de ambos os povos.

No continente americano, Leão XIV manifestou preocupação com as tensões no Mar do Caribe, ao longo da costa americana do Pacífico e no Haiti. E sobre a  Venezuela, afirmou:

“Renovo o apelo ao respeito pela vontade do povo venezuelano e ao empenho na defesa dos direitos humanos e civis de todos e na construção de um futuro de estabilidade e concórdia, haurindo inspiração no exemplo dos seus dois filhos que tive a alegria de canonizar em outubro passado, José Gregorio Hernández e Irmã Carmen Rendiles, a fim de construir uma sociedade baseada na justiça, na verdade, na liberdade e na fraternidade, e assim superar a grave crise que há muitos anos aflige o país.”

No panorama mundial, o Pontífice falou das crises em Mianmar e na região africana dos Grandes Lagos, no Sudão e Sudão do Sul.

O perigo do aumento dos arsenais nucleares e a IA

Além de fronteiras geográficas, a paz também está ameaçada pela existência de arsenais nucleares. A propósito, o Papa Leão apontou para a importância de dar seguimento ao Tratado New START, que termina em fevereiro próximo. “O perigo é que o sonho seja o da corrida a produzir novas armas cada vez mais sofisticadas”, disse o Papa, incluindo neste tópico o desafio da inteligência artificial, ferramenta que também requer uma gestão adequada e ética.

Leão XIV concluiu seu discurso em tom esperançoso, pois mesmo diante deste quadro dramático, a paz continua possível. Exige humildade e coragem: “A humildade da verdade e a coragem do perdão”.

Para finalizar, citou São Francisco de Assis, cuja morte completará 800 anos no próximo mês de outubro: “A sua vida é luminosa porque foi animada pela coragem da verdade e pela consciência de que um mundo pacífico se constrói a partir de um coração humilde, voltado para a cidade celestial. Um coração humilde e construtor de paz é o que desejo a cada um de nós e a todos os habitantes dos nossos países no início deste novo ano. Obrigado!”.

Fonte: Vatican News