Novo Consistório em junho, Leão XIV: faremos um por ano

janeiro 13, 2026 / no comments

Novo Consistório em junho, Leão XIV: faremos um por ano

 

O próximo Consistório já está marcado: em junho, às vésperas da solenidade dos Santos Pedro e Paulo, também com duração de dois dias. Foi o próprio Pontífice quem anunciou essa segunda reunião, no discurso conclusivo da terceira e última sessão desta tarde, que reuniu 170 cardeais, eleitores e não eleitores. O Papa — explicando que a reunião destes dois dias se coloca “em continuidade” com o que foi pedido às congregações gerais antes do Conclave — manifestou a vontade de continuar os Consistórios com periodicidade anual e duração de 3 a 4 dias. O Santo Padre já havia antecipado, no seu primeiro discurso, que este Consistório é uma “prefiguração do nosso caminho futuro”. Ele também confirmou a Assembleia Eclesial de outubro de 2028, anunciada em março passado.

Gratidão e proximidade

Além dos anúncios, Leão XIV quis agradecer aos presentes pela participação e pelo apoio. Um agradecimento especial aos cardeais mais idosos pelo esforço de comparecer: “O testemunho de vocês é precioso”, e uma manifestação de proximidade aos purpurados ao redor do mundo que não puderam estar em Roma nestes dias: “Estamos com vocês e somos próximos de vocês”.

Uma “sinodalidade não técnica”, aquela que o Papa diz ter experimentado entre ontem e hoje: uma profunda sintonia e comunhão, com uma metodologia escolhida para favorecer um melhor conhecimento mútuo, diante da diversidade de formações e experiências de cada um. Daí, a referência ao Concílio Vaticano II, base do caminho e da renovação da Igreja, e também o esclarecimento de que os outros dois temas propostos e não votados ontem pela assembleia — a liturgia e a Praedicate evangelium — estão fortemente conectados ao Concílio e não devem ser esquecidos. Por fim, não faltou, da parte do Pontífice e também de todos os membros do Colégio Cardinalício, um olhar para a situação geral do mundo, que torna “ainda mais urgente” uma resposta por parte da Igreja que se faz próxima das Igrejas locais que sofrem com guerras e violências.

O olhar voltado para a Venezuela

Nessa mesma linha, embora os temas do Consistório fossem outros — sinodalidade e missão à luz da Evangelii Gaudium, votados ontem pela maioria dos cardeais —, não faltou um pensamento, em especial por parte dos cardeais latino-americanos, sobre a situação da Venezuela. Porta-voz dessa preocupação foi o cardeal Luis José Rueda Aparicio, arcebispo de Bogotá, na Colômbia, na mesa dos relatores durante uma coletiva de imprensa noturna com os cardeais Stephen Brislin, arcebispo de Joanesburgo, na África do Sul, e Pablo David, bispo de Kalookan, nas Filipinas.

O arcebispo colombiano recordou as palavras do Papa no Angelus de 4 de janeiro, no dia seguinte ao ataque dos Estados Unidos, nas quais Leão XIV “expressou sua profunda preocupação com o que está acontecendo na Venezuela e se comprometeu a incentivar o diálogo e a busca do consenso, invocando a paz, para construir uma paz que seja ao mesmo tempo desarmada e desarmante, que busque unir os povos no respeito aos direitos humanos e à soberania”. “Aquela mensagem de domingo deu o tom às minhas reflexões destes dias”, afirmou Rueda. Não era o tema oficial do Consistório, mas era “inevitável” que os membros do Colégio Cardinalício “estejam preocupados com o que está acontecendo”, estejam “se fazendo perguntas” sobre a direção que está sendo tomada, sobre como a geopolítica da América Latina está mudando e como a Igreja pode acompanhar a população. A Venezuela é um tema que “trazemos no coração, nos entristece a todos e desejamos os melhores desdobramentos possíveis no futuro próximo”, afirmou Rueda.

Companheiros de caminho

Cardeais brasileiros participaram do Consistório.

Os três cardeais relatores apresentaram então os temas e o clima geral que emergiram durante os trabalhos iniciados pela manhã e continuados à tarde, marcados também por momentos de canto e oração, com uma pausa para o almoço no átrio da Aula Paulo VI (com a presença do Papa, que presenteou cada um com a medalha do seu pontificado). A sinodalidade, a necessidade de vivê-la como “companheiros de caminho”, de que ela se reflita no exercício da autoridade, na formação e no trabalho dos núncios, de que seja vivida na Cúria com “uma maior internacionalização”, e depois a releitura da exortação do Papa Francisco Evangelii gaudium, texto que não “caducou” com o pontificado anterior, mas que ainda interpela dioceses, a Cúria Romana e o próprio Papa, foram o objeto das reflexões dos grupos linguísticos. Foram vinte grupos: onze incluindo cardeais não eleitores, nove com cardeais eleitores, ordinários de dioceses e núncios ainda em serviço, explicou o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni.

“O Papa fazia anotações, estava muito atento”

Por sua vez, Brislin definiu a experiência como “muito enriquecedora”, graças às diferentes perspectivas que permitiram aprofundar as necessidades do mundo. Foi, portanto, uma oportunidade para conhecer e se conhecer. “O fato de haver um novo encontro em junho é um sinal de que o Santo Padre levou muito a sério o fato de que podemos ajudá-lo em seu papel de Sucessor de Pedro”, disse. “Oito meses após o Conclave, o Papa quis nos convocar para nos ouvir”, afirmou Rueda. Isso “nos fortalece na missão da Igreja”.O cardeal David elogiou o formato usado para os trabalhos, graças à qual “todos puderam falar”, e apreciou o fato de que o Papa “ouviu mais do que falou”: “Ele fazia anotações, estava muito atento, e as contribuições que deu foram muito enriquecedoras para todos nós”.

A importância de se conhecer

Um jornalista perguntou quais seriam os verdadeiros elementos de novidade surgidos neste Consistório, já que muitos dos temas elencados já haviam sido amplamente aprofundados durante a dupla sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade. Em resposta, Brislin explicou que a novidade não deve ser buscada “apenas nas discussões”, mas na própria “oportunidade de nos conhecermos e de nos ouvirmos”. “Isso é importante porque viemos de diferentes partes do mundo; alguns são novos cardeais, outros já o são há muito tempo”. O Papa, acrescentou o arcebispo de Joanesburgo, “quer ser colegial, quer ouvir, quer recorrer à experiência e ao conhecimento dos cardeais que vêm das diversas partes do mundo, porque isso pode ajudá-lo a guiar a Igreja”. Os perfis são “diversos”, mas trabalhou-se “em uma harmonia que não é uniformidade”, concluiu o cardeal Rueda.

Leigos e mulheres

Ainda sobre os temas, os jornalistas também perguntaram se a questão da participação dos leigos e o papel das mulheres na Igreja de alguma forma entraram nas discussões. A esse respeito, o cardeal David disse: “Como não reconhecer o papel das mulheres e seus ministérios na Igreja?”. “Certamente” a questão feminina é “uma preocupação constante”, afirmou o purpurado filipino, recordando os resultados — publicados recentemente — da Comissão para o estudo do diaconato feminino. David também mencionou o “clericalismo” e retomou a ideia do “sacerdócio” do povo, inspirada no Vaticano II. “Falamos do corpo da Igreja: temos a cabeça da Igreja, mas não apenas a cabeça, há também um corpo. As pessoas têm o poder de participar da vida e da missão da Igreja”.

Fonte: Vatican News
Foto: Vatican Media

Papa: “A guerra voltou a estar na moda”. É preciso reforçar o multilateralismo

janeiro 9, 2026 / no comments

Papa: “A guerra voltou a estar na moda”. É preciso reforçar o multilateralismo

 

 

Realizou-se na manhã desta sexta-feira, 9 de janeiro, uma das audiências mais importantes do ano. Tradicionalmente, ao receber o Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, o Papa faz uma análise da conjuntura internacional, passando em resenha os principais fatos que marcaram os últimos meses. E assim foi para Leão XIV, que pessoalmente viveu o encontro como uma “novidade”, por ser sua primeira vez com os diplomatas de 184 países e organizações internacionais.

O Santo Padre começou recordando o Jubileu recém-concluído e a morte do seu predecessor, o Papa Francisco: “No dia do funeral, o mundo inteiro se reuniu em torno do seu caixão, sentindo a perda de um pai que guiou o Povo de Deus com profunda caridade pastoral”. Outro evento eclesial de destaque foi a viagem à Turquia e ao Líbano, pela qual o Papa agradeceu às autoridades de ambos os países pelo acolhimento.

Ao partilhar a sua visão sobre este tempo “tão conturbado por um número crescente de tensões e conflitos”, o Pontífice se deixou guiar pela grande obra de Santo Agostinho De Civitate Dei, “A Cidade de Deus”. O livro não propõe um programa político, mas alerta para os graves perigos decorrentes de falsas representações da história, de um nacionalismo excessivo e da distorção do ideal do estadista. Para Leão XIV, certas semelhanças permanecem bastante atuais, como os movimentos migratórios e a reestruturação dos equilíbrios geopolíticos e dos paradigmas culturais.

“Neste nosso tempo, preocupa particularmente a fragilidade do multilateralismo no plano internacional. Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso de todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou de grupos de aliados. A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está se alastrando. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias.”

A importância da ONU e da defesa dos direitos humanos fundamentais

Hoje, analisou o Papa, não se procura a paz como um dom de Deus, mas através das armas, como condição para afirmar o próprio domínio, comprometendo gravemente o Estado de direito. O Pontífice recordou que a Organização das Nações Unidas foi criada 80 anos atrás tendo como eixo justamente a cooperação multilateral para salvaguardar a paz e defender os direitos humanos fundamentais.

A propósito do direito internacional humanitário, Leão XI recordou que deve sempre prevalecer sobre as veleidades dos beligerantes: “A Santa Sé reitera com firmeza a sua condenação de qualquer forma de envolvimento de civis em operações militares”.

Sobre o direito de expressão, reforçou a necessidade do diálogo, mas advertiu para o uso e o significado das palavras, cada vez mais utilizadas como uma arma com a qual se engana, se atinge e ofende os adversários, seja na política, seja nas redes sociais.

Ainda sobre a linguagem, o Santo Padre manifestou sua preocupação com o desenvolvimento de uma nova linguagem, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, “acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam”.

A crescente perseguição aos cristãos

O Papa Leão falou ainda da liberdade de consciência, sobretudo na rejeição de práticas como o aborto ou a eutanásia, e da liberdade religiosa, pedindo “total respeito” de culto para os cristãos e para todas as outras comunidades religiosas. A propósito, condenou mais uma vez com veemência o antissemitismo.

O Pontífice lamentou a crescente perseguição aos cristãos, que afeta mais de 380 milhões de fiéis em todo o mundo, ou seja, um em cada sete. E citou países como Bangladesh, Nigéria, Síria e Moçambique. Já na Europa ou nas Américas, verifica-se uma forma sutil de discriminação por razões políticas ou ideológicas, especialmente quando se defende a dignidade dos mais frágeis.

Nesta categoria, o Papa incluiu os migrantes, pedindo ações contra a ilegalidade e o tráfico de seres humanos, e os detentos, renovando o chamado pela abolição da pena de morte.

Leão XIV discursou ainda a favor da família e do matrimônio, como união exclusiva e indissolúvel entre a mulher e o homem. E condenou o chamado “direito ao aborto seguro” e a gravidez de substituição, transformando-a num serviço comercializado. Semelhantes considerações podem ser estendidas aos doentes e às pessoas idosas e sozinhas, e aos jovens, mais expostos à toxicodependência.

Respeitar a vontade do povo venezuelano

Diante de um verdadeiro “curto-circuito” dos direitos humanos, Leão XIV mencionou novamente Santo Agostinho para reivindicar o “direito de cidadania” à cidade de Deus. “Na ausência de um fundamento transcendente e objetivo, prevalece apenas o amor a si mesmo”, afirmou o Santo Padre, que ofusca a empatia para com o próximo.

É o que se constata no prolongamento da guerra na Ucrânia e na Terra Santa, com enorme sofrimento infligido à população civil. No primeiro caso, o Papa reafirmou a urgência de um cessar-fogo imediato. No segundo, a solução de dois Estados para responder às legítimas aspirações de ambos os povos.

No continente americano, Leão XIV manifestou preocupação com as tensões no Mar do Caribe, ao longo da costa americana do Pacífico e no Haiti. E sobre a  Venezuela, afirmou:

“Renovo o apelo ao respeito pela vontade do povo venezuelano e ao empenho na defesa dos direitos humanos e civis de todos e na construção de um futuro de estabilidade e concórdia, haurindo inspiração no exemplo dos seus dois filhos que tive a alegria de canonizar em outubro passado, José Gregorio Hernández e Irmã Carmen Rendiles, a fim de construir uma sociedade baseada na justiça, na verdade, na liberdade e na fraternidade, e assim superar a grave crise que há muitos anos aflige o país.”

No panorama mundial, o Pontífice falou das crises em Mianmar e na região africana dos Grandes Lagos, no Sudão e Sudão do Sul.

O perigo do aumento dos arsenais nucleares e a IA

Além de fronteiras geográficas, a paz também está ameaçada pela existência de arsenais nucleares. A propósito, o Papa Leão apontou para a importância de dar seguimento ao Tratado New START, que termina em fevereiro próximo. “O perigo é que o sonho seja o da corrida a produzir novas armas cada vez mais sofisticadas”, disse o Papa, incluindo neste tópico o desafio da inteligência artificial, ferramenta que também requer uma gestão adequada e ética.

Leão XIV concluiu seu discurso em tom esperançoso, pois mesmo diante deste quadro dramático, a paz continua possível. Exige humildade e coragem: “A humildade da verdade e a coragem do perdão”.

Para finalizar, citou São Francisco de Assis, cuja morte completará 800 anos no próximo mês de outubro: “A sua vida é luminosa porque foi animada pela coragem da verdade e pela consciência de que um mundo pacífico se constrói a partir de um coração humilde, voltado para a cidade celestial. Um coração humilde e construtor de paz é o que desejo a cada um de nós e a todos os habitantes dos nossos países no início deste novo ano. Obrigado!”.

Fonte: Vatican News