60 anos sob o sinal da esperança

março 28, 2020 / no comments

Quando em 26 de março 1960, o saudoso Papa São João XXIII, criava a Diocese de Nova Iguaçu, através da Bula QuandoquidemVerbis, já havia nessas terras da Baixada Fluminense uma forte presença da Igreja. Hoje celebramos seus 60 anos. A criação da Diocese possibilitou estruturar melhor e, assim, dar mais consistência à ação evangelizadora na região. Por outro lado, poder chamar de “nossa” a missão, compromete a um empenho maior e a olhar de perto os desafios que nas diversas horas da história se apresentam.

Desde as suas origens, a nossa Diocese conheceu a dedicação apaixonada de homens e mulheres, que compreenderam imediatamente que a ação da Igreja aqui devia estar muito próxima das lutas e dores de nossa gente, para levar-lhes a novidade cheia de esperança do Evangelho. Por isso, junto com o imprescindível anúncio da pessoa de Jesus e seu de seu Reino,a obra da evangelização sempre teve presente a colaboração no desenvolvimento humano e social do lugar, uma vez que, como diz Santo Irineu, “a glória de Deus é o homem vivo”.

A memória dos primeiros evangelizadores não se perdeu, mas ganhoureconhecimento e projeção em nomes de ruas e outras referências que fazem parte da vida das cidades da Baixada Fluminense. A sua memória se perpetua porque sua dedicação sacerdotal e cristã alcançou o coração de tantas pessoas e deixou marcas na vida concreta de nossa gente. Além disso, não se pode deixar de recordar os inúmeros anônimos que foram seus colaboradores e que, na simplicidade de sua condição, deram vida a projetos que nasciam dos ideais de uma inspiração evangélica autêntica.

Celebrar 60 anos é fazer memória agradecida dos cristãos bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas e multidões de leigos e leigas, de ontem e de hoje, que testemunharam e testemunham sua fé na nossa amada Baixada.É também retornar às fontes de sua inspiração para responder aos desafios que hoje se colocam à missão, em um contexto completamente novo, de uma verdadeira mudança de era como a que estamos vivendo.

Celebramos estes 60 anos no período da Quaresma e, nela, da Campanha da Fraternidade, que neste ano nos convida a inspirar-nos nas atitudes do Bom Samaritano do Evangelho: “viu, sentiu compaixão e cuidou dele”. As pautas de nosso compromisso dos 60 anos são aquelas indicadas pelo Papa Francisco: ser Igreja em saída, missionária, e também samaritana, que não fica indiferente diante da solidão e da dor de tantos que vivem perto de nós.

Não podemos negligenciar dirigir um olhar para a atual situação pandêmica que nos obrigou a rápidas mudanças e a adaptações, sempre na perspectiva de ser uma Igreja em saída e que procura viver a sua vocação de ser presença junto a todos e, especialmente, aos mais pobres e sofredores.Os últimos acontecimentos exigem ainda mais uma Igreja mais perto das pessoas, e, concretamente, no lugar onde elas se encontram.

As recentes Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, nos impelem a ser presença, através das comunidades eclesiais missionárias que têm na “casa”a sua inspiração mais forte. As próprias circunstâncias estão nos fazendo valorizar a casa não apenas como lugar seguro, mas também como a Igreja doméstica, que se reúne pelas casas.

Horizontes para a nossa missão não faltam. Queremos fazer jus ao testemunho dos irmãos que nos precederam e seguir adiante, discernindo melhor nosso modo de testemunhar a esperança sempre necessária neste tempo de importantes desafios religiosos, culturais e sociais, encontrando caminhos novos, que correspondam aos anseios e necessidades dos homens e mulheres do nosso tempo. Empenhemo-nos nas propostas planejadas para a vida de nossa Diocese neste ano.

Nossa Senhora da Piedade, primeira grande luz acesa no coração dos fiéis de nossa Diocese, nos inspire atitudes para sustentar a todos aqueles e aquelas que, à semelhança do seu Filho, tombam nas suas lutas e esperam testemunhas da esperança que os ajudem a não desistir de seguir caminhando.

 

Artigo de Dom Gilson Andrade da Silva, bispo de Nova Iguaçu e Vice-presidente do Regional Leste 1 – CNBB.

O coração e os pés na missão

dezembro 8, 2019 / no comments

A poetisa mineira, Cora Coralina, ao afirmar que o que não toca o coração fica sem sentido, certamente intuía que é a partir de dentro que a vida muda. Na importante escola que a propria vida é, vivenciam-se muitas coisas que são como importantes divisores de águas. Assim considero a experiência de minha passagem pela Arquidiocese de Salvador e do encontro com D. Murilo Krieger, arcebispo da primeira Diocese do país.

Quandoem julho de 2011 recebi do Papa Bento XVI a nomeação  para bispo auxiliar da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, a Sé Primaz do Brasil, ainda não o conhecia pessoalmente.Durante 7 anos servindo como bispo auxiliar na Sé Primacial,pudeentão conhecê-lo melhor ecompartilharas responsabilidades do ministérioepiscopal, dentro de uma bela experiência marcada por amizade, alegrias e dores próprias da missão.Na convivência fraterna, dividindo o mesmo teto, a mesma mesa, nós, bispos auxiliares,desfrutávamosde sua amizade e da sua maneira simples e prática de expor a experiênciaacumulada.Afinal, quando D. Murilo chegou à Bahia de Todos os Santos, em 25 de março de 2011, já possuía uma bagagem de experiência pastoral de muitos anos de episcopadofecundo. Aquela era a sua 4ª Diocese.

Para alguém querecebe inicialmentea nomeaçãode bispo auxiliar, como foi o meu caso, trata-se de uma graça particular poder contar com a experiência de um outro bispo, que o ajude de forma generosa, sábia e amiga, a introduzir-se bem nas tarefas próprias de um ministério tão exigente.

Uma das primeiras coisas que ouvi dele e que trago dentro de mim é que “o meu coração deve estar onde os meus pés pisam”. O coração é mais que o afeto, é a pessoa toda inteira.Na convivência diária via nele um Pastor dedicado que aplicava seus afetos, suas energias, o seu tempo cuidadosamente aproveitado, para responder aos desafios próprios da sua missão na Bahia.  De fato, a missão requer dedicação exclusiva e intensa, feita de muitos detalhes cotidianos e de coisas muitas vezes surpreendentes. Lembro-me que, recentemente, ao ser confirmado como bispo de Nova Iguaçu, recebi de D. Murilo uma mensagem na qual me dizia: “você verá que um bispo toca a graça de Deus com as mãos”. Assim pude constatar o segredo da serenidade com que se pode viver um ministério tão exigente: a certeza de que nunca se está sozinho, Cristo compartilha nossas lutas e dores e nos oferece ombros amigos capazes de dividir conosco o “peso leve” do seu seguimento.

Neste 7 de dezembro de 2019, véspera da solenidade da Imaculada Conceição de Maria, o arcebispo Primaz do Brasil celebrou50 anos deministério sacerdotal.Um catarinense de Brusque, da Congregação do Padre Dehon,que, com sua transparência, proximidade e grandeza humana e espiritual, cativou o coração dos soteropolitanos e dos baianos, em geral.

Esta importante ocasião, me brinda a oportunidade de homenageá-lo e trazer à memória a vivência daqueles anos recentes, mas que deixaram marcas profundas.Os grandes homens não passam na nossa vida sem deixar algo de si.Essas poucas linhas, simplesmente servemde um breve aceno, uma homenagem singela, pois a experiência e a gratidão são maiores que a possibilidade de expressá-las na sua totalidade.

Também na rica história da Arquidiocese de São Salvador da Bahia este pastor deixará sua marca.Dos pequenos e dos grandes, dos sábios e dos simples, das autoridades civis e religiosas, aproximou-se com respeito e com consciência clara de sua missão. Sua projeção no Estado da Bahia comprova a consciência de que todas as ovelhas interessam ao Pastor. Seu cuidado pelas vocações oferecerá certamente um marco para a história do Seminário Central da Bahia. Um bispo sensível às necessidades do momento, atento a oferecer a proximidade da presença da Igreja nos dramas da vida dos irmãos. Um mestre que através dos seus escritos alcançou muitos corações. Um homem interessado pela vida da cidade, pensemos nas intervenções importantes em momentos de crises sociais e na impulso que deu à restauração de importantes edifícios que a fé construiu na cidade.

Com seu jeito alegre e simples deixou transparecer a força do seu lema episcopal: “Deus é amor”.  Parafraseando o padroeiro dos párocos, São João Maria Vianney, podemos dizer: «um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma diocesee um dos dons mais preciosos da misericórdia divina». A ele a nossa saudação e gratidão. Ad multos annos!

 

Artigo de dom Gilson Andrade da Silva, bispo de Nova Iguaçu e Vice-presidente do Regional Leste 1 – CNBB

 

Foto: Sara Gomes – Assessoria de Imprensa da Arquidiocese de São Salvador da Bahia (BA)