24ª Assembleia Eclesial do Regional Leste 1 começa com reflexão sobre o cansaço da Igreja
Primeiro dia do encontro, no Centro de Estudos do Sumaré, teve celebração presidida por Dom Gilson e reflexão do padre Douglas Alves Fontes sobre os desafios do cristianismo em uma sociedade marcada pela exaustão
A 24ª Assembleia Eclesial do Regional Leste 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) começou nesta quinta-feira (3), no Centro de Estudos do Sumaré, no Rio de Janeiro. O encontro reúne bispos, padres, religiosos, religiosas e representantes das comunidades e pastorais para refletir sobre os caminhos da Igreja no estado do Rio de Janeiro.
Com o tema “As Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: caminho de recepção do Sínodo para uma Igreja missionária, sinodal e servidora da dignidade humana”, a assembleia segue até sábado (5).
A programação começou com a chegada dos participantes, às 16h. Às 17h30, foi celebrada a Santa Missa com Vésperas, presidida por Dom Gilson Andrade da Silva, bispo de Nova Iguaçu e presidente do Regional Leste 1. Concelebraram Dom Luiz Henrique da Silva Brito, bispo de Barra do Piraí-Volta Redonda e vice-presidente do Regional, e Dom Antonio Luiz Catelan Ferreira, bispo auxiliar do Rio de Janeiro e secretário do Regional.
“Vós sois de Cristo”
Na homilia, Dom Gilson partiu das leituras propostas pela liturgia do dia, com destaque para a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (3,18-23) e o Evangelho segundo Lucas (5,1-11).
O presidente do Regional destacou o significado de iniciar a assembleia com a celebração da memória de São Gregório Magno, papa e doutor da Igreja. Para Dom Gilson, a liturgia ofereceu uma chave importante para os trabalhos dos próximos dias.
Ao recordar a divisão existente na comunidade de Corinto entre os grupos ligados a Pedro, Paulo e Apolo, o bispo ressaltou a exortação de São Paulo à unidade em torno do essencial da fé. Em vez de se prender às divisões, a comunidade é chamada a reconhecer sua pertença comum a Cristo.
A mensagem ganhou um sentido especial no início de uma assembleia dedicada a pensar os caminhos da ação evangelizadora. “Vós sois de Cristo”, lembrou Dom Gilson, retomando o eixo da leitura paulina.
Uma Igreja cansada
Após o jantar e a sessão de abertura, os participantes foram convidados a olhar para uma realidade que atravessa a sociedade e também a vida das comunidades: o cansaço.

O tema foi apresentado pelo padre Douglas Alves Fontes, doutor em Teologia e membro do clero da Arquidiocese de Niterói. A reflexão, intitulada “A Igreja do Cansaço”, tomou como referência o livro Igreja do Cansaço, de Willibaldo Ruppenthal Neto, que dialoga com o diagnóstico feito pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em A Sociedade do Cansaço. O material apresentado também relaciona o tema aos desafios vividos atualmente pelas comunidades cristãs.
A reflexão parte da ideia de que a sociedade contemporânea é marcada pela cobrança permanente por desempenho, produtividade e resultados. Nesse cenário, a pessoa passa a explorar a si mesma em busca de uma performance cada vez maior. O material apresentado chama esse processo de “autoexploração voluntária” e aponta suas consequências, como esgotamento e perda de sentido.
O problema, segundo a reflexão, também pode atingir a experiência religiosa. A vida de oração, a participação comunitária e o serviço podem correr o risco de assumir a mesma lógica de produtividade: fazer mais, alcançar mais pessoas, obter mais resultados e medir a própria atuação por números.
“Somos pastores, mas somos também filhos de Deus.”
A frase, apresentada entre as reflexões sobre os chamados “pastores cansados”, sintetiza uma das provocações da noite: reconhecer que aqueles que exercem responsabilidades na Igreja também estão sujeitos aos limites humanos e precisam de descanso. O material alerta para uma compreensão equivocada segundo a qual o pastor deveria estar sempre disposto ao sacrifício, sem espaço para reconhecer o próprio cansaço.
Do desempenho ao descanso
A reflexão também apontou outros sinais desse cansaço na vida eclesial. Entre eles estão o ativismo religioso, a multiplicação de reuniões e eventos, a busca por engajamento numérico e o enfraquecimento das relações comunitárias.
Outro ponto abordado foi a transformação das relações em números. Seguidores, curtidas e métricas podem levar à redução do outro a mais um número, inclusive na experiência religiosa. O material chama atenção para o risco de uma Igreja marcada por uma espécie de “membresia quantificada”, na qual a quantidade passa a ocupar o lugar da relação.
Como contraponto, a reflexão propôs recuperar o sentido bíblico do descanso. O material apresentado afirma que o descanso não deve ser entendido como recompensa depois da produtividade, mas como parte da própria experiência humana diante de Deus. A proposta é que a Igreja possa criar espaços de silêncio, contemplação, partilha e acolhimento.
A reflexão terminou com um convite a pensar a Igreja como uma “contracultura de paz”, capaz de romper com a lógica do desempenho e recuperar o descanso oferecido por Cristo: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”.
Os trabalhos da 24ª Assembleia Eclesial prosseguem nesta sexta-feira (4), quando os participantes avançarão na reflexão sobre as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil e sobre a recepção do caminho sinodal, tendo como horizonte uma Igreja missionária, sinodal e servidora da dignidade humana.
