Contribuir para a construção de uma nova sociedade

setembro 9, 2019 / no comments

A comemoração do 7 de setembro gera oportunidades para análises mais aprofundadas sobre a realidade brasileira, com suas luzes e sombras, os interesses que circulam em várias direções e os grandes desafios que a nação enfrenta, ou melhor, que cada brasileiro no seu dia a dia deve enfrentar. Ao se falar de nação o nosso olhar não pode se desviar dos indivíduos e das famílias que constituem a base de toda a sociedade brasileira.

Não pretendo aqui entrar em análises sociopolíticas, aliás nem é de minha competência. No entanto, a ocasião é propícia para recordar uma contribuição específica que a Igreja católica pode oferecer, através do seu ensino social, para a construção de relações justas, tão importantes para a saúde de qualquer sociedade e para uma boa convivência entre as pessoas. Vivemos tempos que requerem posicionamentos de conciliação e diálogo e em que o bem comum seja verdadeiramente buscado.

A doutrina social da Igreja não é um sistema de estratégia governamental para oferecer uma opção a mais de forma de governo, mas sim um conjunto de princípios que, partindo do Evangelho e da experiência, oferece elementos adequados a ajudar as pessoas a viverem de uma maneira mais humana e fraterna.

Os tempos modernos trouxeram consigo a necessidade da Igreja católica posicionar-se mais frequentemente sobre as questões sociais, a fim de ajudar os seus fieis a terem critérios, de acordo com o Evangelho, sobre a atuação do cristão na sociedade. Em 1891, o Papa Leão XIII, ao escrever a Rerum novarum, deu início a uma série de intervenções dos Sumos Pontífices que constitui um corpo consistente sobre o pensamento social da Igreja Católica. Naquele documento, tratou-se da situação dos trabalhadores diante das injustiças geradas pela revolução industrial e criticando os materialismos comunista e capitalista. Os anos posteriores confirmaram os prognósticos do Papa acerca dos sofrimentos que as injustiças sociais geram na vida dos trabalhadores e do mundo.

Mais recentemente, esse pensamento foi condensado numa publicação chamada de Compêndio da Doutrina Social da Igreja de fácil acesso, com publicação inclusive digital. O Papa Francisco, em seus pronunciamentos, e particularmente na Encíclica Laudato Si, tem oferecido uma interessante reflexão sobre as relações entre as grandes questões sociais do nosso tempo e o cuidado com a casa comum, o meio ambiente.

Interessa-nos ter referências, diante do caos social que parece espalhar-se em todos os setores da sociedade. Não apenas os cristãos, mas muitos estudiosos têm se interessado por esse ensino social da Igreja, uma vez que, baseado na luz do Evangelho, considera também como fonte de sua reflexão o direito natural. Entre os católicos há um interesse novo de ter acesso a essas fontes. Em muitos lugares surgem as chamadas Escolas de fé e cidadania com o intuito de sistematizar esse acesso e formar lideranças capazes de contribuir positivamente com sua atuação comprometida com as pessoas. Sentimos cada vez mais a necessidade de que todos se empenhem na reconstrução do tecido social, hoje tão dilacerado. Mais que nunca temos consciência do valor da ética nessa tarefa. O cristianismo compartilha com todas as culturas o que nelas representa forças do bem viver entre os seres humanos. Na base desses princípios está o elemento fundamental da afirmação da dignidade da pessoa humana. Dele decorrem outros tão apreciados quanto raros: o interesse pelo bem comum, a solidariedade, o destino universal dos bens, a participação, a subsidiariedade, os valores, principalmente a verdade, a liberdade, a justiça e o amor. Através do desenvolvimento desses princípios nas distintas relações sociais o que se pretende é, precisamente, defender e oferecer apoio para que a dignidade própria e única da pessoa humana seja respeitada, cresça e se desenvolva.

DOM GILSON ANDRANDE DA SILVA

Bispo Diocesano de Nova Iguaçu (RJ)

Cultura urbana e evangelização – Artigo de Dom Gilson Andrade da Silva

agosto 17, 2019 / no comments

Na 57ª Assembleia dos Bispos do Brasil, em maio passado, foram aprovadas as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil para o quadriênio 2019 a 2023. Trata-se de identificar elementos de um processo para responder aos desafios da missão dos cristãos nesta hora da história, de modo a incidir positivamente nas circunstâncias atuais. Afinal, o Evangelho, ao propor uma nova relação com Deus, a de filhos e filhas, e dos homens entre si como irmãos, oferece às diversas culturas valores que dignificam a pessoa humana e a elevam a uma maior humanização. Um Deus próximo que aproxima as pessoas umas das outras.

“Evangelizar no Brasil cada vez mais urbano”, é um dos objetivos das Diretrizes. De fato, nos damos conta de um giro cultural em ação nas últimas décadas. Alguns chegam até mesmo a falar de uma nova era da história da humanidade. Esta nova configuração cultural tem na realidade “urbana” uma expressão bem característica. Há elementos culturais que pouco a pouco configuram uma nova maneira de se colocar diante da vida que afeta profundamente o relacionamento com as coisas e também entre as pessoas.

Quando se fala de urbano, na reflexão feita pelos bispos nas Diretrizes, refere-se não simplesmente à tendência que vai se generalizando das pessoas viverem nos grandes centros, mas tem a ver com fato de que “o estilo de vida e a mentalidade dos ambientes citadinos se expandem sempre mais, alcançando rincões mais distantes, com todas as consequências – humanas, éticas, sociais, tecnológicas e ambientais entre outras” (n. 28). Lembro-me sempre de um amigo padre, de uma cidadezinha do interior da Bahia, que me dizia certa vez em uma conversa numa rede social: “na minha cidade não tem água encanada, mas não falta internet”. Constatar isso ilustra o impacto que novos conhecimentos e novas relações têm na atual cultura.

As Diretrizes procuram entrar em diálogo com realidades presentes na cultura urbana, mostrando as sombras, mas também projetando luzes sobre elementos que a caracterizam como a individualidade, a pluralidade, o ambiente religioso urbano, a alta mobilidade, a pobreza, a crise de vida e de sentido, o desafio ambiental e o impacto dessas realidades sobre as gerações mais jovens.

Diante disso, constata-se a atualidade do que dizia São Paulo VI em 1975, na Exortação Apostólica sobre a Evangelização no mundo contemporâneo: “para a Igreja não se trata tanto de pregar o Evangelho a espaços geográficos cada vez mais vastos ou populações maiores em dimensões de massa, mas de chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação” (n. 19).

Para enfrentar esta missão, os bispos lembram a atualidade do anúncio da pessoa de Jesus Cristo, um anúncio explícito, mas que vai sempre vinculado com a experiência comunitária da vivência da fé em comunidades eclesiais missionárias, lugar onde a fé se torna próxima das pessoas, como em sua casa, e o testemunho encontra força para atrair as pessoas ao amor de Cristo que se manifesta no amor entre os irmãos.