O coração e os pés na missão

dezembro 8, 2019 / no comments

A poetisa mineira, Cora Coralina, ao afirmar que o que não toca o coração fica sem sentido, certamente intuía que é a partir de dentro que a vida muda. Na importante escola que a propria vida é, vivenciam-se muitas coisas que são como importantes divisores de águas. Assim considero a experiência de minha passagem pela Arquidiocese de Salvador e do encontro com D. Murilo Krieger, arcebispo da primeira Diocese do país.

Quandoem julho de 2011 recebi do Papa Bento XVI a nomeação  para bispo auxiliar da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, a Sé Primaz do Brasil, ainda não o conhecia pessoalmente.Durante 7 anos servindo como bispo auxiliar na Sé Primacial,pudeentão conhecê-lo melhor ecompartilharas responsabilidades do ministérioepiscopal, dentro de uma bela experiência marcada por amizade, alegrias e dores próprias da missão.Na convivência fraterna, dividindo o mesmo teto, a mesma mesa, nós, bispos auxiliares,desfrutávamosde sua amizade e da sua maneira simples e prática de expor a experiênciaacumulada.Afinal, quando D. Murilo chegou à Bahia de Todos os Santos, em 25 de março de 2011, já possuía uma bagagem de experiência pastoral de muitos anos de episcopadofecundo. Aquela era a sua 4ª Diocese.

Para alguém querecebe inicialmentea nomeaçãode bispo auxiliar, como foi o meu caso, trata-se de uma graça particular poder contar com a experiência de um outro bispo, que o ajude de forma generosa, sábia e amiga, a introduzir-se bem nas tarefas próprias de um ministério tão exigente.

Uma das primeiras coisas que ouvi dele e que trago dentro de mim é que “o meu coração deve estar onde os meus pés pisam”. O coração é mais que o afeto, é a pessoa toda inteira.Na convivência diária via nele um Pastor dedicado que aplicava seus afetos, suas energias, o seu tempo cuidadosamente aproveitado, para responder aos desafios próprios da sua missão na Bahia.  De fato, a missão requer dedicação exclusiva e intensa, feita de muitos detalhes cotidianos e de coisas muitas vezes surpreendentes. Lembro-me que, recentemente, ao ser confirmado como bispo de Nova Iguaçu, recebi de D. Murilo uma mensagem na qual me dizia: “você verá que um bispo toca a graça de Deus com as mãos”. Assim pude constatar o segredo da serenidade com que se pode viver um ministério tão exigente: a certeza de que nunca se está sozinho, Cristo compartilha nossas lutas e dores e nos oferece ombros amigos capazes de dividir conosco o “peso leve” do seu seguimento.

Neste 7 de dezembro de 2019, véspera da solenidade da Imaculada Conceição de Maria, o arcebispo Primaz do Brasil celebrou50 anos deministério sacerdotal.Um catarinense de Brusque, da Congregação do Padre Dehon,que, com sua transparência, proximidade e grandeza humana e espiritual, cativou o coração dos soteropolitanos e dos baianos, em geral.

Esta importante ocasião, me brinda a oportunidade de homenageá-lo e trazer à memória a vivência daqueles anos recentes, mas que deixaram marcas profundas.Os grandes homens não passam na nossa vida sem deixar algo de si.Essas poucas linhas, simplesmente servemde um breve aceno, uma homenagem singela, pois a experiência e a gratidão são maiores que a possibilidade de expressá-las na sua totalidade.

Também na rica história da Arquidiocese de São Salvador da Bahia este pastor deixará sua marca.Dos pequenos e dos grandes, dos sábios e dos simples, das autoridades civis e religiosas, aproximou-se com respeito e com consciência clara de sua missão. Sua projeção no Estado da Bahia comprova a consciência de que todas as ovelhas interessam ao Pastor. Seu cuidado pelas vocações oferecerá certamente um marco para a história do Seminário Central da Bahia. Um bispo sensível às necessidades do momento, atento a oferecer a proximidade da presença da Igreja nos dramas da vida dos irmãos. Um mestre que através dos seus escritos alcançou muitos corações. Um homem interessado pela vida da cidade, pensemos nas intervenções importantes em momentos de crises sociais e na impulso que deu à restauração de importantes edifícios que a fé construiu na cidade.

Com seu jeito alegre e simples deixou transparecer a força do seu lema episcopal: “Deus é amor”.  Parafraseando o padroeiro dos párocos, São João Maria Vianney, podemos dizer: «um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma diocesee um dos dons mais preciosos da misericórdia divina». A ele a nossa saudação e gratidão. Ad multos annos!

 

Artigo de dom Gilson Andrade da Silva, bispo de Nova Iguaçu e Vice-presidente do Regional Leste 1 – CNBB

 

Foto: Sara Gomes – Assessoria de Imprensa da Arquidiocese de São Salvador da Bahia (BA)

 

Acender uma luz

dezembro 1, 2019 / no comments

Conta-se que um homem, certa vez, se perdera numa densa floresta. Em pleno dia, pouco podia enxergar, pois o sol já não penetrava o interior da selva devido à densidade das folhas das árvores. Antes da noite cair, porém, apavorado pelo pensamento da escuridão que se aproximava, lembrou-se de que em sua mochila trazia uma vela e uma caixa de fósforos. Alegrou-se por um instante por aquela singela “salvação” que lhe alcançara. Ao cair a noite, acendeu a sua vela e seguiu o seu caminho. Tão tenso estava que não conseguia deixar de andar. Assim, caminhou uma noite inteira até que o sol despontou. Ele, no entanto, conservava a vela acesa, apesar da luz do sol clarear já a região que era menos densa de floresta. A pequena luz na mão já não iluminava nada, mas ele havia se apegado à sua pequena segurança.

Esta história veio-me à memória precisamente neste 1º domingo do Advento, quando o ciclo das celebrações litúrgicas inaugura um novo tempo, marcado pela preparação para a vinda de Jesus no Natal e recordando também aquela vinda prometida para o final dos tempos. 

Uma luz grande contrasta a luz pequena das nossas certezas e dos nossos costumes. Na noite de Natal, durante a chamada Missa do Galo, se lê um trecho do profeta Isaías onde se diz que “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9, 2). O tema da luz é bem presente tanto tempo do Advento quanto no Natal. Além das várias menções nos textos bíblicos e das orações da liturgia, pensemos, por exemplo, nas árvores iluminadas pelos pisca-piscas; na coroa do Advento, com suas 4 grandes velas, marcando o ritmo das semanas de preparação; nas luzes que adornam as fachadas das Igrejas, casas, e lojas, etc. 

Acendemos nossas luzes porque queremos superar as trevas que nos cercam. Cada um conhece bem a sua necessidade de iluminar a própria vida e o próprio ambiente. Deus nos oferece uma Luz maior. Trata-se da sua presença em meio às trevas do mundo. Esta luz foi acesa no primeiro presépio da história, aquele real, da cidade de Belém. O carinho de Maria e de José aqueceram o ambiente frio da gruta e Deus ofereceu a Luz que ilumina o mundo inteiro.

Essas 4 semanas que antecedem o Natal são preparatórias para acolher a Luz maior que com que Deus deseja nos presentear, o seu próprio Filho Jesus Cristo. Ele, em pessoa, deseja nos visitar. 

De muitas formas, como cristãos, desejamos reproduzir essa visita. O Natal não é apenas um fato histórico, recluso no passado. Ele está em ação hoje. Deus continua visitando e iluminando a vida das pessoas hoje. Por isso, queremos nos preparar. 

Entre tantas propostas, vamos pelas casas rezando a Novena de Natal. Queremos agasalhar com o calor de nossos corações aqueles e aquelas que se encontram sozinhos e esquecidos. Renovaremos, como Diocese de Nova Iguaçu, o nosso gesto concreto de oferecer às crianças do hospital da Posse, o leite em pó que serve de sustento ao longo do ano. Multiplicaremos tantos sinais da presença terna de Deus no nosso meio. Como Maria e José encontraremos lugar para que Jesus possa ser acolhido na pessoa do irmão com fome, sede, nu, doente, prisioneiro, estrangeiro, multiplicando tantas iniciativas de caridade. 

A melhor preparação para o Natal é o coração aberto para acolher o dom de Deus, Jesus, que se manifesta na fragilidade de uma criança precisada de proteção. São tantas as fragilidades de nosso tempo e tantas as boas possibilidades do coração humano. Através da oração e da caridade esforcemo-nos para preparar o melhor Natal de nossas vidas. Junte-se a outros que querem iluminar o mundo com a Luz que Deus oferece, pois juntos se pode preparar uma festa melhor e acender uma luz ainda maior. Bom tempo de Advento!

 

Artigo de dom Gilson Andrade da Silva, bispo de Nova Iguaçu e Vice-presidente do Regional Leste 1 – CNBB