Uma recepção harmoniosa, criativa e frutuosa do Sínodo sobre a Amazônia

fevereiro 16, 2020 / no comments

A Exortação Querida Amazônia do Papa Francisco, desperta em todos que a lêem uma atitude de admiração e alegria diante do esplendor, drama e mistério que envolve este precioso Bioma que constitui o coração pulsante da Terra. Como o mesmo Papa tinha afirmado, no momento da apresentação das Conclusões do Sínodo, o importante era focalizar os diagnósticos que, como apelos à conversão e transformação, tornaram-se quatro sonhos que vertebram a Exortação: o sonho social, o cultural, o ecológico e o eclesial.

O sonho social se dispõe a resgatar os direitos e dignidade das populações amazônicas, oprimidas pela injustiça e o crime devastador, projetos economicistas que atrás de um lucro vil destroem e ameaçam a vida e as redes que a sustentam. O sonho cultural, que busca valorizar e exaltar o Poliedro Amazônico em sua diversidade, identidades, estilos de vida e cosmovisões, protegendo suas raízes e tradições, como um contributo inestimável para a humanidade.

O sonho ecológico que, com um olhar contemplativo e uma visão de preservação e cuidado integral da Casa Comum, quer defender rios, matas, populações e espécies que vivem interligados, glorificando o Projeto do Pai. Finalmente, o sonho eclesial que visa, no espírito sinodal, construir uma Igreja inculturada, com espiritualidade e liturgia encarnadas na realidade exuberante e desafiadora da Amazônia.

Uma Igreja que descobre novos caminhos de evangelização, de ministerialidade e serviços, promovendo um laicato adulto, responsável e participativo, com o protagonismo das mulheres nas decisões e planejamento eclesial. Trata-se de desencadear processos, de motivar a solidariedade das Igrejas locais com a Amazônia, e de escutar, como expressivo sinal dos tempos, o Grito da floresta.

Ao encerrar a sua inspirada reflexão pós-sinodal o Papa Francisco invoca, uma vez mais, a proteção da Mãe da Vida e Rainha da Criação, Maria Santíssima, para que, como Mãe da Amazônia, a liberte de todos os males e defenda, como sempre o fez, seus filhos mais pobres e oprimidos. Deus seja louvado!

 

Artigo de Dom Roberto Ferrería Paz, bispo de Campos dos Goytacazes.

O valor de ter referências

fevereiro 16, 2020 / no comments

À medida que os anos passam, vamos percebendo que a nossa história pessoal é entrecruzada por inúmeros encontros que a marcam e, de alguma forma, a condicionam sem a determinar. Particularmente, agradeço ter encontrado muitas pessoas que hoje percebo suas marcas nos passos que tenho trilhado. Certamente, essa é uma constante na vida de todo ser humano. A qualidade de nossos “encontros” é determinante para a nossa missão neste mundo. Os familiares são os primeiros, mas depois vêm educadores, amigos, pessoas que trabalharam conosco, etc. De tal modo, ninguém consegue ser ele mesmo sem o encontro com tantas pessoas e realidades que acabam se tornando divisores de águas e forjando aquilo que vamos tornando-nos.

O Papa Francisco repete com certa frequência que “a pessoa é missão”. Estamos aqui por algo que tem a ver com aquilo que, de fato, somos, mas que vai se constituindo com aquilo que se vive. A vida de ninguém é inútil, mesmo daqueles que pensamos não terem sido tão agraciados pela vida com dons naturais, ou até mesmo, com saúde física e mental. O ser humano sempre surpreende, mas para isso é preciso encontrar-se com alguém ou com circunstâncias que nos ajudem a tirar o melhor de nós.

As circunstâncias da vida também não são indiferentes. Lembro-me sempre de um ditado dos ingleses que define o que é a vida. Segundo eles dizem, “a vida é aquilo que vai acontecendo, enquanto a gente vai fazendo planos”. É preciso aprender a escutar nos acontecimentos os apelos de Deus.

O Deus dos cristãos, o Deus que se revelou em Jesus Cristo, tem isso de único na história das religiões, a sua revelação se deu no ritmo da história de um povo. Ele se apresentou como um Deus que caminha com os seus escolhidos e foi no ritmo dos fatos que Ele foi mostrando o seu rosto. Portanto, a história com toda a liberdade humana que a envolve, é lugar de encontro com Deus e com o seu projeto amoroso que é sempre maior do que nós mesmos e nos faz ser nós mesmos.

Através de tantos acontecimentos, Deus foi se fazendo encontrar e oferecendo à humanidade aquelas referências que dão sentido à vida. Ele rompeu o silêncio e falou. A criação é uma Palavra de Deus. Por isso, através dela tantos sábios chegaram à firme convicção de que Deus existe. Mas Ele também quis ser mais explícito e nos falou através de homens e mulheres e, finalmente, nos falou pelo seu Filho, Jesus Cristo.

Este domingo, na liturgia católica, o tema das referências aparece nos mandamentos de Deus. Eles traduzem o caminho de realização do ser humano e, ao serem explicados mais explicitamente por Jesus, podem realizar a sua finalidade que é colocar o ser humano dentro da proposta de Aliança que Deus lhe faz. Deus assim o quis para que o ser humano não perdesse a rota da viagem que é a vida e possa chegar a um porto seguro. Essas referências são os 10 mandamentos. Antes que os ver como “obrigação”, é preciso que os percebamos como indicações de um Pai que quer muito bem a seus filhos. São João Paulo II falou certa feita que “antes dos mandamentos de Deus está o Deus dos mandamentos”. Essa referência não se pode perder. Aliás, Deus não entregou os mandamentos a Moisés sem antes ter se mostrado ao povo como um Deus que se interessava pelo destino daquela nação e sem ter antes libertado aquele povo da escravidão do Egito. Este é o contexto dos mandamentos e que revela que a Lei de Deus tem a ver com o bem do ser humano.

Compartilhando essa experiência, penso em algumas pessoas que às vezes escuto dizer: “faltam-nos referências”. É verdade que a vida tem suas complexidades, mas sempre tem alguém que pode estar perto de nós indicando caminhos: pessoas, circunstâncias, fé. É preciso ter olhos para enxergar que não estamos sozinhos.

 

Artigo de Dom Gilson Andrade da Silva, bispo de Nova Iguaçu e Vice-presidente do Regional Leste 1 – CNBB.