Cinzas e Quaresma

fevereiro 26, 2020 / no comments

Na quarta-feira de Cinzas começamos a Quaresma, tempo de penitência e de renovação interior para prepararmos a Páscoa do Senhor. A liturgia da Igreja convida-nos com insistência a purificar a nossa alma e a recomeçar novamente.

A conversão consiste, sobretudo, no reconhecimento de nossa condição de criaturas limitadas, mortais e pecadoras. No gesto de imposição das cinzas sobre a cabeça das pessoas, o sacerdote ou o ministro diz: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. A conversão consiste em crer no Evangelho. Crer é aderir a ele, viver segundo os ensinamentos do Senhor Jesus. Pode-se usar também a outra fórmula: “Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar”. Numa das orações da bênção das cinzas se diz: “Reconhecendo que somos pó e que ao pó voltaremos, consigamos, pela observância da Quaresma, obter o perdão dos pecados e viver uma vida nova, à semelhança do Cristo ressuscitado”.

As cinzas são preparadas pela queima de palmas bentas usadas na procissão de Ramos do ano anterior. Lembram, portanto, o Cristo vitorioso sobre a morte. A palma é símbolo de vitória e de triunfo. Assim, se os cristãos aceitam reconhecer sua condição de criaturas mortais, e transformar-se em pó, ou seja, passar pela experiência da morte, a exemplo de Cristo, pela renúncia de si mesmos, participarão também da vida que ressurge das cinzas.

A Páscoa se vive na conversão, através dos exercícios da oração, do jejum e da esmola. A imposição das cinzas não constitui um mero rito a ser repetido a cada ano. É celebração da vocação do ser humano, chamado à imortalidade feliz, contanto que realize o mistério pascal de morte e vida em sua vida fraterna.

O tempo da Quaresma é o momento oportuno para que olhemos mais profundamente para o Mistério da Cruz. Olhar para a Cruz, contemplar esse Mistério é ir ao porquê de tudo aquilo que nós faremos durante a Quaresma. As orações, os jejuns e esmolas têm sentido porque nos põem em contato com a Cruz do Senhor. Além do mais, nós recebemos do Mistério da Cruz a força para unir-nos à mesma Cruz, ou seja, aquilo que Deus nos pede, ele nos concede: Deus pede que rezemos? Ele nos dá a graça da oração. Deus nos pede que façamos penitência? Ele nos dá a graça para realizá-la? Deus pede que partilhemos e que não sejamos egoístas? Ele nos dá a graça da generosidade e da esmola. O que está por detrás de tudo isso é a primazia da graça de Deus na nossa vida. Quando dirigimos o nosso olhar contemplativo ao mistério da Cruz do Senhor surge em nós o desejo de fazer aquilo que São Paulo fazia: “o que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (cf. Cl 1,24).

O Senhor também nos pede hoje um sacrifício um pouco especial: a abstinência e, também, o jejum, pois o jejum fortifica o espírito, mortificando a carne e a sua sensualidade; eleva a alma a Deus; abate a concupiscência, dando forças para vencer e amortecer as suas paixões, e prepara o coração para que não procure outra coisa senão agradar a Deus em tudo.

Além destas manifestações de penitência (a abstinência de carne a partir dos 14 anos e o jejum entre os 18 e os 59 completos), que nos aproximam do Senhor e dão à alma uma alegria especial, a Igreja pede-nos também que pratiquemos a esmola que, oferecida com um coração misericordioso, deseja levar um pouco de consolo aos que passam por privações ou contribuir conforme as possibilidades de cada um para uma obra apostólica em bem das almas. Todos os cristãos podem praticar a esmola, não só os ricos e abastados, mas mesmo os de posição média e ainda os pobres; deste modo, embora sejam desiguais pela sua capacidade de dar esmola, são semelhantes no amor e afeto com que a praticam.

Dirigir o coração a Deus, converter-se, significa estarmos dispostos a empregar todos os meios para viver como Ele espera que vivamos, a não tentar servir a dois senhores, a afastar da vida qualquer pecado deliberado. Jesus procura em nós um coração contrito, conhecedor das suas faltas e pecados disposto a eliminá-los. Então lembrar-vos-eis do vosso proceder perverso e dos vossos dias que não foram bons. O Senhor deseja uma dor sincera dos pecados, que se manifestará inicialmente na Confissão sacramental auricular: Converter-se quer dizer para nós procurar novamente o perdão e a força de Deus no sacramento da reconciliação e assim recomeçar sempre, avançar diariamente.

Desta maneira, que possamos nós vivermos um autêntico espírito de penitência, isto é, com uma disposição para a conversão permanente através da penitência. Que este tempo quaresmal seja de muito fruto em nossa caminhada cristã.

 

Artigo de Dom Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist. Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

 

Outros carnavais

fevereiro 23, 2020 / no comments

Chegou mais um carnaval e com ele os “rituais” que o acompanham: a música, a dança, as fantasias, para não falar dos excessos que muitas vezes trazem tristeza a uma festa que pretende ter como pauta a alegria.

A origem da palavra carnaval (do latim, carnem levare – afastar a carne), em contexto cristão, indica a relação religiosa que a festa tem com o tempo que a liturgia católica chama de quaresma, tradicionalmente marcado pela abstinência de carne. Durante os quarenta dias (quaresma) que seguem ao carnaval, o cristão será convidado a uma profunda revisão de vida. Através de algumas práticas, com destaque para uma escuta mais abundante da Palavra de Deus, procura-se avaliar o caminho percorrido, tendo presente a meta que Deus propõe de uma vida vivida com mais sentido, superando o egoísmo e colocando no centro o amor. A quaresma, como a primavera, propõe recomeçar, e isso é sempre possível no encontro com o Cristo Ressuscitado, imagem da humanidade nova.

É verdade que, pouco a pouco, o sentido originário religioso, foi se perdendo. A tradição cultural do carnaval, ganhou novos rostos. A festa das cores, da música, da imaginação, das máscaras foi se convertendo em uma festa turística, comercial, um espetáculo, uma simples diversão, em um mundo que se farta de instrumentos para a diversão. O seu sentido original relacionado com o tempo da quaresma, mudou completamente. Agora, para muitos, trata-se de celebrar o carnaval, mas sem a quaresma e a Páscoa.

É interessante notar que a quaresma aparece entre uma felicidade que se fabrica nos ritmos carnavalescos e uma outra que vem da vida do Ressuscitado, na celebração da Páscoa, oferecendo vida em abundância aos que o encontram.

Seria uma pena contentar-se com uma “felicidade pequena”, como aquela que cantava o “Poetinha”, em uma de suas belas poesias, simplesmente como “a grande ilusão do carnaval. A gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho pra fazer a fantasia de rei, ou de pirata, ou jardineira, e tudo se acabar na quarta-feira.”

É verdade que sonhar é próprio do ser humano. Formulamos nossos sonhos e colocamos os meios para alcançá-los. É sempre permitido sonhar, mas sem tirar os pés do chão, pois os sonhos melhores são aqueles que se transformam em realidade. Os sonhos falam também dos mistérios profundos que o coração humano abriga e do desejo de uma felicidade que não seja como a “doce ilusão do carnaval”.

Após os dias de carnaval, a quaresma oferecerá a oportunidade de colocar os pés na realidade para ver o que acontece conosco e com o mundo ao nosso redor, para que em um novo encontro com Cristo e com o seu Evangelho, acolhamos a proposta de felicidade perene que a fé oferece. Assim, um outro modo de conceber o carnaval pode nos ajudar a viver uma vida melhor, semeando sementes de um mundo novo.

Neste ano, no grande contexto das práticas quaresmais, a Igreja católica no Brasil oferece à nossa reflexão e à nossa ação a imagem do Bom Samaritano. Diante das realidades de dores do nosso tempo queremos, a seu exemplo, ver, sentir compaixão e cuidar de quem precisa.

Durante esses dias, muitos também se retiram para um tempo maior de oração e de partilha da vida para iniciar com ânimo um itinerário quaresmal mais consistente. São outros carnavais possíveis, que oferecem descanso, paz interior e renovam as forças para seguir em frente na luta cotidiana que torna a vida uma aventura que vale a pena.

 

Artigo de Dom Gilson Andrade da Silva, bispo de Nova Iguaçu e Vice-presidente do Regional Leste 1 – CNBB