A oportunidade do momento presente

abril 25, 2020 / no comments

Um trecho dos Atos dos Apóstolos, lido recentemente na liturgia pascal, nos conta como os apóstolos, colocados na prisão por causa do testemunho do Evangelho, foram milagrosamente libertos por um anjo que lhes abriu uma porta e lhes ordenou que fossem contar ao povo, no Templo, tudo o que se referia àquele novo modo de viver (cf. At 5, 17-26).

O contexto desfavorável para a missão, naquela primeira hora da comunidade cristã, foi transformado em oportunidade. A Providência divina encontra meios de abrir portas às prisões que nos são impostas. Lembro-me do relato de um frade dominicano que tendo sido designado para uma missão em Cuba, espantou-se ao ver o sorriso das pessoas do local, enquanto passavam fortes restrições de todo o tipo, devido ao regime ditatorial que enfrentavam. Ele perguntou a uma pessoa sobre como ela continuava mantendo o sorriso numa situação tão deprimente. Ela então respondeu: “o sorriso é o que temos, o que nos resta. E isso não podem nos tirar”.

Há sempre um espaço que não deixa de ser nosso. Precisamos tomar consciência disso e apossar-nos daquilo que temos como oportunidade em qualquer situação que atravessamos na vida. Há sempre algo a adicionar quando parece que só estamos perdendo.

Ouvi alguém comentar que as pessoas estão se reinventando, no contexto da pandemia. Reinventar-se para não se paralisar na lamentação. Nada mais cristão do que o velho ditado: “fazer limonada com o limão que a vida oferece”. Talvez alguém diga que essas palavras caberiam bem em um livro de autoajuda, mas não diante do que está acontecendo. É bom lembrar que as pandemias registradas na história foram também ocasião de fortalecimento e progresso para a humanidade e não apenas de sofrimento.

Além disso, o espírito cristão tem seu apoio na fé no Cristo Ressuscitado, vencedor do pecado, do mal e da morte. A visão que o cristianismo tem do mundo e da história possuia sua base na fé na criação e na nova criação inaugurada por Cristo. Por isso, é próprio do cristão abraçar a humanidade com otimismo e esperança. A atual urgência sanitária desafia a nossa visão acerca de tudo,desde o modo como nos relacionamos com a natureza ao aspecto mais importante das relações com Deus e entre nós. Esta pandemia pode nos ajudar a retornar à base daquilo que, de fato, somos, sem retrocessos diante das autênticas conquistas da humanidade.

Nas encruzilhadas da vida, Deus se encarrega de se aproximar de nós e nos ajudar a ver que se pode abrir uma estrada no deserto, que há sempre um novo caminho que pode ser percorrido. Podemos, talvez, nos paralisar diante da pergunta que todos nós fazemos: até quando isso vai se prolongar? É fácil parar aqui e procurar ajeitar as coisas simplesmente esperando a tempestade passar. Na verdade, não sabemos muito sobre o tempo, mas sabemos que temos esta hora, este momento. O agora é ocasião de cuidados, de restrições, de sobressaltos econômicos, e de tantas outras coisas que estamos enfrentando, cada um a seu modo. Mas o agora é o que temos e não o depois, aproveitemo-lo! Fujamos da tentação de procurar refúgio no passado ou da fuga imaginária para um futuro que sequer sabemos se será ou não o nosso.

O Evangelho nos oferece a sabedoria de aproveitar como oportunidade o momento presente: “a cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6, 34).

É tempo de cuidar

abril 18, 2020 / no comments

Em muitas falas recentes sobre a atual pandemia, ouve-se dizerque toda crise é também oportunidade. A vida do ser humano é marcada por repetidas “crises”. Nascer é a primeira crise que se tem que enfrentar.A partir daí a vida segue um longo ou curto processo de crescimento. No percurso, é preciso contar com outras situações críticas que a própria vida se encarrega de oferecer. Quem não se lembra, por exemplo, de quando teve que ir para a escola pela primeira vez? Para uns tratou-se de uma realidade tranquila, já para outros não foi tão fácil ter que se adaptar a uma realidade complemente diferente.

O fato é que toda crise nos desestabiliza e revela que ainda não chegamos aonde devemos chegar, mas que é preciso aproveitar as várias circunstâncias da vida para as oportunidades novas que se oferecem. Na crise há dor, mas também há descobertas que podem marcar uma revolução na vida pessoal para o bem ou para o mal. Tudo dependerá de fazer as escolhas mais acertadas. Para isso, é necessário contar com a experiência de outros também. Nada como uma crise para ajudar-nos a compreender que dependemos uns dos outros, que ninguém pode pretender viver uma vida melhor só olhando para si.

Como temos ouvido frequentemente, no atual contexto da pandemia, espera-se que juntos consigamos ter atitudes diferentes, melhores, depois do sofrimento que juntos também estamos atravessando.

Um dos elementos surpreendentes desse tempo tem sido as diversas manifestações de solidariedade. É evidente que também entre os cristãos isso se manifeste de muitas formas, afinal a solidariedade está no DNA do cristão, uma vez que ele entende que somos o que somos porque Deus se fez solidário à condição de necessidade da humanidade e também porque Jesus ordenou-nos amar-nos como Ele nos amou.

A Igreja católica no Brasil tem procurado potencializar aquilo que já normalmente faz nas diversas inciativas caritativas que realiza. Entende-se que o momento atual gera uma urgência ainda maior do ponto de vista social. Portanto, é preciso unir as forças para poder ir ao encontro dos irmãos e irmãs que se encontram em diversos tipos de necessidades. Com esse intuito, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e Cáritas Nacional estão se unindo às múltiplas iniciativas das dioceses, paróquias e outros grupos, através de um projeto de ação solidária emergencial, intitulado “É TEMPO DE CUIDAR”, inspirado no lema da Campanha da Fraternidade 2020.

As atitudes do bom samaritano que “viu, sentiu compaixão e cuidou” do homem que ele encontrou à beira do caminho, inspiram os gestos concretos que juntos queremos assumir diante da atual circunstância de dor que estamos vivenciando.

Através do diálogo com as várias realidades eclesiais e a troca de experiências, pretende-se estimular aquelas ações que possam atender de modo mais eficiente a  assistência imediata, tendo sempre presentes as medidas de precaução higiênica indicadas pelasautoridades sanitárias.

Atenção especial deve ser colocada também para identificar outras formas de vulnerabilidade que também deverão ser atendidas. O projeto da equipe CNBB-Cáritas destacava, por exemplo, a solidão e outrasangústias emocionais, bem como o atendimento religioso diante da exigência dedistanciamento social.

Em nossa Diocese, as Paróquias, Cáritas diocesana e Centro de Direitos Humanos, além de outras realidades eclesiais, como, por exemplo, a Casa do Menor, têm se mobilizado com propostas concretas para identificar as necessidades e oferecer acompanhamento e ajudas necessárias.

Que a pandemia desperte ainda mais entre nós a solidariedade necessária neste tempo, procurando tocar a carne de Cristo sofredor, dando esperança para que nossos irmãos e irmãs sigam caminhando neste deserto em que nos encontramos.

 

Artigo de Dom Gilson Andrade da Silva, bispo de Nova Iguacu e Vice-presidente do Regional Leste 1 – CNBB.