Cultura urbana e evangelização – Artigo de Dom Gilson Andrade da Silva

agosto 17, 2019 / no comments

Na 57ª Assembleia dos Bispos do Brasil, em maio passado, foram aprovadas as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil para o quadriênio 2019 a 2023. Trata-se de identificar elementos de um processo para responder aos desafios da missão dos cristãos nesta hora da história, de modo a incidir positivamente nas circunstâncias atuais. Afinal, o Evangelho, ao propor uma nova relação com Deus, a de filhos e filhas, e dos homens entre si como irmãos, oferece às diversas culturas valores que dignificam a pessoa humana e a elevam a uma maior humanização. Um Deus próximo que aproxima as pessoas umas das outras.

“Evangelizar no Brasil cada vez mais urbano”, é um dos objetivos das Diretrizes. De fato, nos damos conta de um giro cultural em ação nas últimas décadas. Alguns chegam até mesmo a falar de uma nova era da história da humanidade. Esta nova configuração cultural tem na realidade “urbana” uma expressão bem característica. Há elementos culturais que pouco a pouco configuram uma nova maneira de se colocar diante da vida que afeta profundamente o relacionamento com as coisas e também entre as pessoas.

Quando se fala de urbano, na reflexão feita pelos bispos nas Diretrizes, refere-se não simplesmente à tendência que vai se generalizando das pessoas viverem nos grandes centros, mas tem a ver com fato de que “o estilo de vida e a mentalidade dos ambientes citadinos se expandem sempre mais, alcançando rincões mais distantes, com todas as consequências – humanas, éticas, sociais, tecnológicas e ambientais entre outras” (n. 28). Lembro-me sempre de um amigo padre, de uma cidadezinha do interior da Bahia, que me dizia certa vez em uma conversa numa rede social: “na minha cidade não tem água encanada, mas não falta internet”. Constatar isso ilustra o impacto que novos conhecimentos e novas relações têm na atual cultura.

As Diretrizes procuram entrar em diálogo com realidades presentes na cultura urbana, mostrando as sombras, mas também projetando luzes sobre elementos que a caracterizam como a individualidade, a pluralidade, o ambiente religioso urbano, a alta mobilidade, a pobreza, a crise de vida e de sentido, o desafio ambiental e o impacto dessas realidades sobre as gerações mais jovens.

Diante disso, constata-se a atualidade do que dizia São Paulo VI em 1975, na Exortação Apostólica sobre a Evangelização no mundo contemporâneo: “para a Igreja não se trata tanto de pregar o Evangelho a espaços geográficos cada vez mais vastos ou populações maiores em dimensões de massa, mas de chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação” (n. 19).

Para enfrentar esta missão, os bispos lembram a atualidade do anúncio da pessoa de Jesus Cristo, um anúncio explícito, mas que vai sempre vinculado com a experiência comunitária da vivência da fé em comunidades eclesiais missionárias, lugar onde a fé se torna próxima das pessoas, como em sua casa, e o testemunho encontra força para atrair as pessoas ao amor de Cristo que se manifesta no amor entre os irmãos.

A família como vai? – Artigo de Dom Gilson Andrade da Silva

agosto 10, 2019 / no comments

Era o ano de 1994 quando uma das Campanhas da Fraternidade que a Igreja católica costuma celebrar a cada quaresma tratou do tema da família. A pergunta que encabeça este artigo teve a força de ajudar muita gente, naquela ocasião, a repensar a qualidade de suas relações dentro do aconchego do lar e do papel decisivo da família na sociedade. De lá para cá muita coisa aconteceu, estamos passando por aquilo que a Conferência de Aparecida (2007) chamou de mudança de época. Hoje, inclusive, alguns arriscam falar até mesmo de mudança de era. Vivemos um tempo de profundas transformações onde, especialmente as instituições de maior relevância para a vida da sociedade humana, experimentam uma profunda crise. Portanto, convém de novo colocar a mesma pergunta num contexto novo. Não simplesmente perguntar a família como vai, mas concretamente sobre a família de cada um.

Família tem a ver com a sede de amor que existe em todo ser humano. Por isso, por mais que se pretenda reinventar esta realidade que a Sagrada Escritura coloca no ponto de partida da história da humanidade, não se pode negar a sede e a necessidade que todo mundo tem de amor e de amar. Se há algo próprio da identidade humana é a relação que se fundamenta no amor e que tem a sua base numa vida familiar. Falar de família é falar da pertença que nos constitui, por isso não é irrisória a reflexão sobre como vai a família.

Tendo as relações como algo constitutivo da ser humano, cabe também refletir sobre os diversos papeis que se jogam dentro da família. Lembro-me bem que o Sínodo da Juventude de 2018, em Roma, que pude participar, pedia que os papeis de pai e de mãe fossem melhor valorizados e aprofundados. A antropologia cristã reconhece a complementaridade homem e mulher como decisivo para o desenvolvimento da pessoa.

Na Exortação Apostólica A alegria do amor, do Papa Francisco, se recorda que “a mãe, que ampara o filho com a sua ternura e compaixão, ajuda a despertar nele a confiança, a experimentar que o mundo é um lugar bom que o acolhe, e isto permite desenvolver uma autoestima que favorece a capacidade de intimidade e a empatia” (n. 175). Sobre o pai, diz-se na mesma Exortação que na nossa cultura a sua figura “estaria simbolicamente ausente, distorcida, desvanecida” (n. 176). Porém, recorda-se que “Deus coloca o pai na família, para que, com as características preciosas da sua masculinidade […] esteja próximo dos filhos no seu crescimento” (n. 177).

Celebrando o dia dos pais e vivenciando a Semana da Família, de 11 a 17 de agosto, queremos contribuir como cristãos, a partir da nossa oração, reflexão e partilha no projeto de felicidade que Deus tem para nós e que passa pela família. A missão da família é atual e determinante na construção de um mundo novo com o qual todos sonhamos.

 

Fonte: Portal Nova Iguassu On Line