A fraternidade, garantia da paz

janeiro 4, 2020 / no comments

Dentro do contexto das festas natalinas, sempre no 1º dia do ano, o Santo Padre oferece uma mensagem por ocasião da celebração do Dia Mundial da Paz. Esta mensagem é uma reflexão que deve ser continuamente retomada diante dos desafios que o tema da paz tem que enfrentar.

Este ano o tema foi “A paz como caminho de esperança: diálogo, reconciliação e conversão ecológica”. Relacionar paz e esperança é muito conveniente, pois ela “é a virtude que nos coloca a caminho, dá asas para continuar, mesmo quando os obstáculos parecem intransponíveis” (n.1).

Nunca é demais recordar que, quando se trata da árdua luta pela paz, se se quer ser coerente, é sempre necessário percorrer vários caminhos. Pode-se dizer que o ponto de partida está no próprio coração. Não seria coerente buscar por todos os meios lícitos alcançar um projeto de paz se no coração da pessoa ela estivesse ameaçada ou ausente. A paz que se quer fora, começa a sua construção dentro de cada pessoa. Mais ainda, é necessário recordar que ela é um dom que vem do alto, que é necessário pedir e também trabalhar para alcançar. Esta é sem dúvida, uma das tarefas que a humanidade inteira precisa assumir como obra coletiva. Ninguém pode eximir-se desse compromisso comum. Também aqui a humanidade deve se saber e se sentir formada por irmãos e irmãs.

Assim, entre os vários elementos da mensagem deste ano, destaco algo que pode ser-nos muito útil dentro da responsabilidade que todos temos. A paz é caminho de reconciliação na comunhão fraterna, afirma o Papa. Aqui se recorda que a Palavra de Deus nos coloca sempre diante de um Deus que fez aliança com a humanidade e, portanto, nos convida a “abandonar o desejo de dominar os outros e aprender a olhar-nos mutuamente como pessoas, como filhos de Deus, como irmãos.” (n.3) Este modo novo de ver cada ser humano pode gerar o respeito que é o único caminho “possível para romper a espiral da vingança e empreender o caminho da esperança.” (idem)

Assim, a passagem do Evangelho que reproduz o diálogo entre Pedro e Jesus sobre quantas vezes se deve perdoar (Mt 18, 21-22) é um guia seguro para que aprendamos a viver no perdão, o que “aumenta a nossa capacidade de nos tornarmos mulheres e homens de paz”. Seguindo essa linha de pensamento o Papa diz que “o que é verdade em relação à paz na esfera social, é verdadeiro também no campo político e econômico […] nunca haverá paz verdadeira, se não formos capazes de construir um sistema econômico mais justo.” E, citando Bento XVI, lembra que “a vitória sobre o subdesenvolvimento exige que se atue não só sobre a melhoria das transações fundadas sobre o intercâmbio, nem apenas sobre as transferências das estruturas assistenciais de natureza pública, mas sobretudo sobre a progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de atividade econômica caraterizadas por quotas de gratuidade e de comunhão” (n. 3).

A fraternidade, portanto, é o fundamento daquele esforço comum para a promoção da tão necessária cultura da paz. Além disso, o seu fomento está ao nosso alcance no exercício cotidiano da acolhida do outro, da prática do perdão e da busca de meios que favoreçam os mais esquecidos porque vemos neles a presença do mistério de Deus que assumiu o rosto humano sofredor.

 

Artigo de Dom Gilson Andrade da Silva, bispo de Nova Iguaçu e Vice-presidente do Regional Leste. 1 – CNBB

 

Ano novo com a família

dezembro 28, 2019 / no comments

Dentro das comemorações natalinas, este domingo, o último do ano, é marcado pela celebração litúrgica da Sagrada Família de Jesus, Maria e José. Recordaremos nas leituras as constantes intervenções de São José a favor da defesa e da segurança da família que Deus lhe confiara e também as palavras tocantes do Sirácida, que elogia quem honra seus familiares. “Quem respeita a sua mãe ajunta tesouros […] quem honra o seu pai terá alegria com seus próprios filhos; e, no dia em que orar, será atendido[…]terá vida longa”(Eclo 3, 5-7).

Esta recordação nos oferece a oportunidade de falar mais uma vez sobre a família. Nunca é demais refletir sobre o seu papel, embora seus desafios nos tempos atuais não sejam poucos. Aliás, penso que quanto mais desafiador seja a vida em família, mais necessária ela se torna. Da maneira como ela se posiciona em cada tempo, dependem rumos importantes da vida humana em cada geração.

Como célula primordial da sociedade, a família desempenha um papel importantíssimo e insubstituível na história da humanidade. O Papa São João Paulo II afirmava que o futuro da humanidade passa pela família. Quando se pretende pensar uma sociedade sem essa referência primeira, corre-se sempre o risco real de não se consolidar uma experiência comunitária que corresponda às reais necessidades da natureza humana e ceder à tentação do egoísmo e do individualismo.

Sei que hoje falar de “natureza” é “atentar” contra alguns paradigmas teóricos questionáveis que tentam desconstruir as grandes conquistas da experiência e do pensamento de todos os tempos e que nos fizeram chegar até aqui entre erros e acertos. Mas existem constantes da vivência humana que não podem ser negadas.

Lembro-me de um dos famosos livros de C. S. Lewis, A abolição do homem, onde ele se detinha em fazer um levantamento dos princípios éticos de várias culturas milenares e demonstrava ali a coincidência de elementos comuns às diversas civilizações, nos diversos séculos. Com isso, o autor das Crônicas de Nárnia, pretendia apresentar argumentos positivos sobre valores que representam constantes na própria estrutura interna e social de todos os seres humanos, independentemente de tempo ou lugar.

Mas interessa-nos, mais que exposições teóricas, encontrar os caminhos para uma autêntica realização familiar. Um novo ano sugere sempre metas novas. Não há fórmulas prontas, em se tratando desse assunto, pois a vida da família tem a ver com as relações.

Quando um homem e uma mulher se casam, na celebração do sacramento do matrimônio eles se dizem “eu te recebocomo meu esposo…como minha esposa”. A dinâmica da abertura constante para o outro totalmente diferente de mim está na base das relações familiares. Receber o outro e ser recebido por ele, ser capaz de doar-se e acolher o dom, aqui se realiza toda a trama das relações familiares. Só na abertura ao outro se pode entender o que é a família, por isso podem ser sempre novas as relações dentro da mesma família. Assim, a família é um antídoto fabuloso para levar à superação do egoísmo que adoece de forma tão dramática a nossa sociedade.

Uma belo caminho de realização familiar encontramos nas palavras do apóstolo Paulo, no famosos hino ao amor: “o amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, nem guarda ressentimento, não se alegra com a injustiça,mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13, 4-7).  Uma bela meta para o novo ano que vamos inaugura. Feliz Ano Novo!

 

Artigo de Dom Gilson Andrade da Silva, bispo de Nova Iguaçu e Vice-presidente do Regional Leste 1 – CNBB