Sete situações que a grave realidade nos oferece:

março 19, 2020 / no comments

ficar, faxinar, pensar, desligar, fortalecer, rezar e acreditar…

1. Há uns cinco anos, conheci um jovem casal, com uma filha, cujo marido e pai, piloto de avião de uma grande companhia aérea, com muitas viagens de trabalho, me disse: “trocaria, com alegria, minhas milhas para ficar mais em casa com a minha família”. Essa fala me impactou profundamente. Pensei: enquanto tantas pessoas buscam acumular milhas, com viagens e compras, para poder viajar mais, encontrei alguém disposto a trocar milhas para não viajar e poder ficar em casa. Hoje, diante da necessária e legítima insistência para o “isolamento social”, me recordei desse fato. Para aqueles e aquelas que, no momento, podem colocar em prática tal recomendação, penso que esse testemunho pode dar um sentido profundo a essa oportunidade “forçada”, que pode se tornar extremamente prazerosa. Quando conseguimos dar sentido às experiências vividas, tudo se torna mais leve e suportável, principalmente as cruzes inerentes à condição humana. É hora de ficar em casa e lembrar também dos nossos irmãos que não têm moradia!

2. Não nos esqueçamos de que estamos no tempo quaresmal, tempo kairótico (de Graça) e Kenótico (de esvaziamento), de revisão de vida e conversão, que o Bom Deus anualmente, nos oferece. Anselm Grün define a Quaresma como “faxina anual do corpo e da alma”. Trata-se, segundo ele, “de purificação, de uma limpeza geral da nossa casa, pensando em tudo o que podemos doar ou jogar fora”. A faxina remete à nossa vida interior que precisa de revisão anual, mensal, semanal e diária. Na faxina, além de se desfazer de tudo aquilo que nos atrapalha, temos, também, a oportunidade de encontrar ou reencontrar fatos e coisas que fizeram parte de nossa vida, foram e são importantes e que ficaram esquecidas pela poeira do tempo. A quaresma é um exercício que nos introduz nessa corajosa aventura de entrarmos em contato com nós mesmos, avaliando como está a nossa relação com Deus, com o próximo, com as coisas e bens. É um itinerário que permite reconhecer e acolher com sinceridade os próprios limites e pedir a Deus a força para superá-los de modo gradativo e constante. O convite para a faxina geral é uma ocasião para reorganizar a nossa casa interior, transformando-a num ambiente saudável, acolhedor, de contentamento e realização. Trata-se de renascer para uma vida nova, mais leve e simplificada. Ambiente “limpo” é ambiente saudável. Saúde interior, espiritual e moral é também saúde física! Conheço uma esposa, mãe e trabalhadora que diz gostar de faxinar a casa, mas infelizmente tem pouco tempo para isso. E o pouco que tem, quando o tem, valoriza grandemente. Eis o tempo favorável! Nada mais gratificante do que uma boa faxina! “Hoje eu vou me visitar. Tomara que eu esteja em casa!” (Karl Valentin)

3. Pensar é a capacidade de admirar-se diante de tudo, espantar-se, ultrapassar e transcender o que se vê, ir além. Nada é óbvio! Se não pensamos, renunciamos ao que é próprio da natureza humana. Trata-se de buscar a verdade das coisas: o que é bom, belo, verdadeiro e justo. Pensar não é tarefa fácil, sobretudo diante das muitas informações que nos chegam quase em tempo real, muitas delas fake news ou desinformação. Quantas vezes repassamos uma informação sem verificar a autenticidade do fato e a autoria. Renunciamos à arte de pensar. Não temos tempo nem para isso. Conheço uma pessoa que, com frequência, diz agradecer a Deus pela insônia, porque assim ela tem mais tempo para pensar no silêncio da noite. Que belo e profundo! Será que queremos dormir logo para não termos tempo para pensar? Pensar dói ou cura? Pensar também é fazer poesia: a arte de ir além da aparência. Nesse sentido, assim se expressa Adélia Prado: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. É certo que a vida não é linear e às vezes experimentamos a aridez e não conseguimos ir além da pedra. Faz parte! A vida é assim mesmo. Contudo, até a aridez pode ser fecunda, para os que têm a coragem de pensar e enfrentar os desertos que a vida apresenta. Agora temos tempo para pensar!

4. Circuit Breaker: desligar o disjuntor. Não conhecia esse mecanismo utilizado pelo Mercado financeiro nas Bolsas de Valores. Trinta minutos podem “acalmar o Mercado” e dar maior serenidade para os investidores que estão sob pressão, evitando assim decisões precipitadas. Desde a primeira vez em que tomei conhecimento dessa expressão, na semana passada, fiz uma aplicação para a nossa vida. Lembrei-me de que quando criança, minha mãe desligava a “chave geral do relógio” de energia, para alguns consertos domésticos. Também quando adolescente, fazia o mesmo. Não havia disjuntor. Hoje temos no quadro de energia disjuntores específicos e o geral. Quando a rede sobrecarrega o disjuntor cai por si… é um mecanismo de segurança… Desligar é preciso… reiniciar também… Quantas vezes, diante de pressões e tensões, nos deixamos levar pelas emoções e não desligamos o disjuntor. No caso humano, é melhor desligar do que deixar cair… pode ser fatal. Pensemos nisso! Reaprender a silenciar antes de reagir.

5. Fortaleza: trata-se de uma virtude cardeal e Dom do Espírito Santo. Estamos na Quaresma, enfrentando, nesse tempo favorável, uma grande e concreta provação planetária, que requer esforço e reflexão pessoais. Entramos no Deserto com Jesus. Portanto, “em frente” com serenidade e “enfrente” com fortaleza e fé em Cristo.

6. Rezar com Santo Agostinho:
“Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu, fora. E aí te procurava e lançava-me nada belo ante a beleza que tu criaste. Estavas comigo e eu não contigo. Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam, se não existissem em ti. Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti. Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz”.

Com Santa Teresa D’Avila:

“Nada te perturbe, Nada te espante,
Tudo passa, Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
Quem a Deus tem, Nada lhe falta:
Só Deus basta. Eleva o pensamento, Ao céu sobe,
Por nada te angusties, Nada te perturbe.
A Jesus Cristo segue, Com grande entrega,
E, venha o que vier, Nada te espante”.

 

E com o Papa Francisco, Mensagem ao Clero de Roma (27-02-2020), para vencer a amargura, texto perfeitamente aplicável a todos os fiéis cristãos.

“Nós esperávamos que fosse Ele”, confidenciaram os discípulos de Emaús uns aos outros (cf. Lc 24, 21). Uma esperança desiludida está na raiz da sua amargura. Mas devemos refletir: foi o Senhor que nos decepcionou ou trocamos a esperança pelas nossas expectativas? A esperança cristã não desilude e não falha. Ter esperança não é convencer-se de que as coisas vão melhorar, mas que tudo o que acontece faz sentido à luz da Páscoa. Mas para esperar de maneira cristã, é necessário viver uma vida de oração substanciosa. É assim que se aprende a distinguir entre expectativas e esperanças. Agora, o relacionamento com Deus — mais do que decepções pastorais — pode ser uma causa profunda de amargura. Às vezes, quase parece que Ele não corresponde às expectativas de uma vida plena e abundante que tivemos… Às vezes, uma adolescência inacabada não te ajuda a passar dos sonhos para a spes (esperanças) Talvez… sejamos demasiado “bonzinhos” na nossa relação com Deus e não ousamos protestar na oração, como o salmista faz muitas vezes — não só por nós, mas também pelo nosso povo; porque o pastor também carrega as amarguras do seu povo — mas os salmos também foram “censurados” e quase nunca fazemos nossa uma espiritualidade de protesto. Então caímos no cinismo: infelizes e um pouco frustrados. O verdadeiro protesto — do adulto — não é contra Deus, mas diante dele, porque nasce precisamente da confiança n’Ele: o orante recorda ao Pai quem Ele é e o que é digno do Seu nome. Devemos santificar o seu nome, mas às vezes os discípulos têm de acordar o Senhor e dizer-lhe: “não te importas que pereçamos?” (Mc 4, 35-41). Então, o Senhor quer envolver-nos diretamente no Seu reino. Não como espectadores, mas participando ativamente. Qual é a diferença entre a expectativa e a esperança? A expectativa nasce quando passamos a vida a salvar a nossa vida: andamos atarefados à procura de segurança, recompensas, promoções… Quando recebemos o que queremos, quase sentimos que nunca morreremos, que será sempre assim! Porque o ponto de referência somos nós. Ao contrário, a esperança é algo que nasce no coração, quando decidimos deixar de nos defender. Quando reconheço as minhas limitações, e que nem tudo começa e nem acaba comigo, então reconheço a importância de ter confiança”.

 

7. Concluo com uma pérola, que encontrei na Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Querida Amazônia”: “Com efeito, onde houver uma necessidade peculiar, Ele (o Espírito Santo) já infundiu carismas que permitam dar-lhe resposta”. Portanto, peçamos ao Espírito Criador, Consolador e Defensor que venha em nosso auxílio, dando-nos discernimento para encontrar, em meio à pandemia do Coronavirus, caminhos de serenidade, contribuição, ajuda, fortaleza e esperança. À luz da fé cristã, sabemos que todo bem, sabedoria e conhecimento vêm de Deus. Portanto, rezemos para que os pesquisadores e cientistas encontrem medicamentos e vacinas capazes de curar e prevenir… rezemos pelos médicos e profissionais de saúde que se colocam a serviço da vida… rezemos pelos governantes e autoridades sanitárias para que inspirados pelo Espirito Santo ofereçam eficientes respostas… rezemos por nós, pelos nossos e por todos e todas, especialmente os mais vulneráveis, pobres e desassistidos. Vem Espírito Santo vem, vem iluminar!

Senhor Jesus, pela vossa Dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro!

Unidos nas orações e solidariedade fraterna que nos fazem próximos, apesar da “distância”, pedindo a intercessão de Nossa Senhora da Saúde, de São Camilo e São José, que hoje celebramos, Patrono universal da Igreja e das famílias, suplicamos, com humildade e gratidão, a Bênção do Bom Deus a cada um, a cada uma, e a toda a família humana.

 

Em frente com serenidade! Enfrente com coragem e fé!

Artigo de Dom Luiz Antonio Lopes Ricci, bispo auxiliar de Niterói (RJ)

CNBB emite mensagem na qual pede observação irrestrita às orientações médico-sanitárias

março 15, 2020 / no comments

Em decorrência do complexo quadro de pandemia da CONAVID-19 (coronavírus) no mundo e em território brasileiro, a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu dia 14 de março a mensagem: “Tempos de Esperança e Solidariedade”. No documento, organizado em 7 parágrafos, a presidência da CNBB informa que as indicações práticas de cuidado estão sendo emitidas em cada diocese, considerado e respeitando a realidade. A mensagem recomenda atenção e consideração irrestrita às orientações dos especialistas de saúde e autoridades competentes.

“Os cuidados com higienização pessoal e do ambiente, bem como evitar aglomerações são regras que precisam ser seguidas por todos, com irrestrita atenção e cuidados, a partir da própria consciência, regida pelo bom sendo e pela fraternidade”, diz o texto da mensagem.

A mensagem reconhece que algumas restrições mexem com o jeito dos católicos conviver e celebrar, contudo pede que as orientações sanitárias e de saúde sejam acolhidas como uma contribuição tendo em vista o bem de todos. O tempo, segundo o documento, é de intensificar a oração, elevando os corações ao Deus da vida, no acolhimento de sua Palavra e por uma vivência de renúncias neste tempo Quaresmal.

Em tempos de celebração da Campanha da Fraternidade 2020, cujo tema é “Fraternidade e vida: dom e compromisso” e o lema fala do cuidado, a presidência da CNBB pede disciplina e obediência às orientações e decisões para o “nosso bem”. Conheça a íntegra do documento abaixo.

Tempos de esperança e solidariedade

Tudo posso naquele me fortalece! (Fp 4,13.

1. Diante do complexo quadro gerado pela pandemia do coronavírus, a CNBB manifesta sua palavra de esperança e de solidariedade. As indicações práticas estão sendo emitidas em cada diocese, considerando e respeitando a realidade. Recomendamos atenção e consideração irrestrita dos especialistas de saúde e autoridades competentes. As indicações sobre o modo como celebrar a fé cabem aos bispos em cada diocese. Todas as normas visam à proteção das pessoas, buscando evitar a contaminação e preservar a vida.

2. Os cuidados com higienização pessoal e do ambiente, bem como o evitar aglomerações são regras que precisam ser seguidas por todos, com irrestrita atenção e cuidados, a partir da própria consciência, regida pelo bom senso e pela fraternidade.

3. Por isso, é importante que essas orientações sejam acolhidas como uma contribuição em vista do bem de todos. Elas requerem ser acompanhadas de muita oração elevando nossos corações ao Deus da Vida, no acolhimento de sua Palavra e por uma vivência de renúncias neste tempo quaresmal. Em momentos difíceis e delicados como este, mais fortes devem ser nossa fé, esperança e união.

4. Algumas restrições mexem com o nosso jeito de conviver e celebrar, pois somos um povo que traz em si o desejo de sempre estar juntos, tanto nos momentos alegres quanto tristes. Conscientes de que as restrições ao convívio não durarão para sempre, aprendamos, a valorizar a fraternidade. Aproveitemos para pensar nos inúmeros outros modos em que a vida de pessoas, povos e do planeta vem sendo agredida. Tornemo-nos ainda mais desejosos de, passada a pandemia, podermos estar juntos, celebrando a vida, a saúde, a concórdia e a paz.

5. Não temamos manifestar a solidariedade e a esperança. Superemos a indiferença. Façamos isso, porém, de modo prudente e em consonância com as orientações sanitárias. São muitos os recursos tecnológicos ao nosso dispor atualmente. Eles podem ajudar a suprir a distância física nesse período de cautela.

6. Tenhamos igual firmeza para discernir informações, desconsiderando notícias falsas, que se alastram com facilidade. Seu desejo é o de nos enfraquecer e abater. Não hesitemos, portanto, em buscar sempre a verdade das informações. Evitemos que o medo nos torne mais vulneráveis. Deus nunca nos abandona e, nos momentos mais difíceis, nós o podemos sentir ainda mais próximo em seu amor e sua paz.

7. Por fim, fazendo cada um a sua parte nessa grande empreitada, que é de todos, não deixemos de rezar pelo mundo inteiro, em especial pelas vítimas e pelos profissionais que incansavelmente trabalham por uma solução. Sejamos disciplinados, obedeçamos às orientações e decisões para nosso bem, e não nos falte o discernimento sábio para cancelamentos e orientações que preservem a vida como compromisso com nosso dom mais precioso.

 

Brasília-DF, 14 de março de 2020

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte-MG
Presidente da CNBB

Dom Mário Antônio da Silva
Bispo de Roraima-RR
2º Vice-Presidente

Dom Jaime Spengler
Arcebispo de Porto Alegre-RS
1º Vice-Presidente

Dom Joel Portella Amado
Bispo auxiliar do Rio de Janeiro- RJ
Secretário-Geral da CNBB

 

MENSAGEM DA PRESIDÊNCIA DA CNBB: Tempos de Esperança e Solidariedade