Presidência da CNBB publica a nota “Em defesa da vida: É tempo de cuidar” para pedir a todos o empenho contra o aborto

abril 18, 2020 / no comments

A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, porta-voz da Igreja Católica na sociedade brasileira, escreveu uma nota com o título “Em defesa da vida: É tempo de cuidar”. O documento, em sintonia com segmentos, instituições, homens e mulheres de boa vontade, convoca a todos pelo empenho em defesa da vida, contra o aborto, e se dirige publicamente, como o faz em carta pessoal, aos ministros do Supremo Tribunal Federal, para que eles defendam o dom inviolável da vida.

A nota é uma resposta ao fato de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter agendado para o próximo dia 24 de abril o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI 5581 –, que versa sobre a liberação do aborto em caso de Zika vírus. O julgamento tinha sido adiado em maio do ano passado após pressão de diversos movimentos pró-vida. A votação está prevista para acontecer de forma virtual.

 

Segue a nota abaixo

EM DEFESA DA VIDA – Nota à sociedade brasileira

 

EM DEFESA DA VIDA: É TEMPO DE CUIDAR

 

A Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, porta-voz da Igreja Católica na sociedade brasileira, em sintonia com segmentos, instituições, homens e mulheres de boa vontade, convoca a todos pelo empenho em defesa da vida, contra o aborto, e se dirige, publicamente, como o faz em carta pessoal, aos Senhores e Senhoras Ministros do Supremo Tribunal Federal para dizer, compartilhar e ponderar argumentações, e considerar, seriamente, pelo dom inviolável da vida, o quanto segue:

“É tempo de cuidar”, a vida é dom e compromisso! A fé cristã nos compromete, de modo inarredável, na defesa da vida, em todas as suas etapas, desde a fecundação até seu fim natural. Este compromisso de fé é também um compromisso cidadão, em respeito à Carta Magna que rege o Estado e a Sociedade Brasileira, como no seu Art 5º, quando reza sobre a inviolabilidade do direito à vida.

Preocupa-nos e nos causa perplexidades, no grave momento de luta sanitária pela vida, neste tempo de pandemia do COVID-19, desafiados a cuidar e amparar muitos pobres e empobrecidos pelo agravamento da crise econômico-financeira, saber que o Supremo Tribunal Federal pauta para este dia 24 de abril 2020, em sessão virtual, o tratamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI 5581, ajuizada pela Associação Nacional dos Defensores Públicos – ANADEP, requerendo a declaração de inconstitucionalidade de alguns dispositivos da Lei 13.301/2016 e a interpretação conforme a Constituição de outros dispositivos do mesmo diploma legal.

Há de se examinar juridicamente a legitimidade ativa desta Associação de Defensores Públicos, como bem destacado nas manifestações realizadas nos autos pela Presidência da República, Presidência do Congresso Nacional, Advocacia Geral da União e Procuradoria Geral da República, pois nos parece, também, que a referida Associação não é legitimada para propor a presente ADI, tendo bem presente que a Lei 13.985/2020 trouxe suporte e apoio para as famílias que foram afetadas pelo Zika vírus, instituindo uma pensão vitalícia as crianças com Síndrome Congênita como consequência.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reitera sua imutável e comprometida posição em defesa da vida humana com toda a sua integralidade, inviolabilidade e dignidade, desde a sua fecundação até a morte natural comprometida com a verdade moral intocável de que o direito à vida é incondicional, deve ser respeitado e defendido, em qualquer etapa ou condição em que se encontre a pessoa humana. Não compete a nenhuma autoridade pública reconhecer seletivamente o direito à vida, assegurando-o a alguns e negando-o a outros. Essa discriminação é iníqua e excludente; “causa horror só o pensar que haja crianças que não poderão jamais ver a luz, vítimas do aborto”. São imorais leis que imponham aos profissionais da saúde a obrigação de agir contra a sua consciência, cooperando, direta ou indiretamente, na prática do aborto.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil insta destacar que o combatido artigo 18 da referida Lei 13.301/2016, cuja ADI pretendia a declaração de inconstitucionalidade de alguns dispositivos, foi completamente revogado pela MP 894 de 2019, convertida em Lei em 2020 (L. 13.985/2020). Desta forma, parece-nos ainda que o objeto da ação foi superado, não servindo a ação para declarar a inconstitucionalidade de outra lei que não a inicialmente combatida.

A CNBB requer, portanto, que, acaso seja superada a preliminar de ilegitimidade ativa suscitada por todas as autoridades públicas que se manifestaram, e não seja extinta a ADI pela perda do objeto, no mérito não sejam acolhidos quaisquer dos pedidos formulados para autorizar, de qualquer forma, o aborto de crianças cujas mães sejam diagnosticadas com o zika virus durante a gestação.

Reafirmamos, fiéis ao Evangelho de Jesus Cristo, nosso repúdio ao aborto e quaisquer iniciativas que atentam contra a vida, particularmente, as que se aproveitam das situações de fragilidade que atingem as famílias. São atitudes que utilizam os mais vulneráveis para colocar em prática interesses de grupos que mostram desprezo pela integridade da vida humana. (S. João Paulo II, Carta Encíclica Evangelium Vitae, 58)

Esperamos e contamos que a Suprema Corte, pautada no respeito à inviolabilidade da vida, no horizonte da fidelidade moral e profissional jurídica, finalize esta inquietante pauta, fazendo valer a vida como dom e compromisso, na negação e criminalização do aborto, contribuindo ainda mais decisivamente nesta reconstrução da sociedade brasileira sobre os alicerces da justiça, do respeito incondicional à dignidade humana e na reorganização da vivência na Casa Comum, segundos os princípios e parâmetros da solidariedade.

 

Cordialmente,

Brasília, 19 de abril de 2020.

Domingo da Misericórdia

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Presidente

Dom Jaime Spengler

1º Vice-presidente

Mário Antônio da Silva

2º Vice-presidente

Dom Joel Portella Amado

Secretário-Geral

 

Fonte: CNBB

É tempo de cuidar

abril 18, 2020 / no comments

Em muitas falas recentes sobre a atual pandemia, ouve-se dizerque toda crise é também oportunidade. A vida do ser humano é marcada por repetidas “crises”. Nascer é a primeira crise que se tem que enfrentar.A partir daí a vida segue um longo ou curto processo de crescimento. No percurso, é preciso contar com outras situações críticas que a própria vida se encarrega de oferecer. Quem não se lembra, por exemplo, de quando teve que ir para a escola pela primeira vez? Para uns tratou-se de uma realidade tranquila, já para outros não foi tão fácil ter que se adaptar a uma realidade complemente diferente.

O fato é que toda crise nos desestabiliza e revela que ainda não chegamos aonde devemos chegar, mas que é preciso aproveitar as várias circunstâncias da vida para as oportunidades novas que se oferecem. Na crise há dor, mas também há descobertas que podem marcar uma revolução na vida pessoal para o bem ou para o mal. Tudo dependerá de fazer as escolhas mais acertadas. Para isso, é necessário contar com a experiência de outros também. Nada como uma crise para ajudar-nos a compreender que dependemos uns dos outros, que ninguém pode pretender viver uma vida melhor só olhando para si.

Como temos ouvido frequentemente, no atual contexto da pandemia, espera-se que juntos consigamos ter atitudes diferentes, melhores, depois do sofrimento que juntos também estamos atravessando.

Um dos elementos surpreendentes desse tempo tem sido as diversas manifestações de solidariedade. É evidente que também entre os cristãos isso se manifeste de muitas formas, afinal a solidariedade está no DNA do cristão, uma vez que ele entende que somos o que somos porque Deus se fez solidário à condição de necessidade da humanidade e também porque Jesus ordenou-nos amar-nos como Ele nos amou.

A Igreja católica no Brasil tem procurado potencializar aquilo que já normalmente faz nas diversas inciativas caritativas que realiza. Entende-se que o momento atual gera uma urgência ainda maior do ponto de vista social. Portanto, é preciso unir as forças para poder ir ao encontro dos irmãos e irmãs que se encontram em diversos tipos de necessidades. Com esse intuito, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e Cáritas Nacional estão se unindo às múltiplas iniciativas das dioceses, paróquias e outros grupos, através de um projeto de ação solidária emergencial, intitulado “É TEMPO DE CUIDAR”, inspirado no lema da Campanha da Fraternidade 2020.

As atitudes do bom samaritano que “viu, sentiu compaixão e cuidou” do homem que ele encontrou à beira do caminho, inspiram os gestos concretos que juntos queremos assumir diante da atual circunstância de dor que estamos vivenciando.

Através do diálogo com as várias realidades eclesiais e a troca de experiências, pretende-se estimular aquelas ações que possam atender de modo mais eficiente a  assistência imediata, tendo sempre presentes as medidas de precaução higiênica indicadas pelasautoridades sanitárias.

Atenção especial deve ser colocada também para identificar outras formas de vulnerabilidade que também deverão ser atendidas. O projeto da equipe CNBB-Cáritas destacava, por exemplo, a solidão e outrasangústias emocionais, bem como o atendimento religioso diante da exigência dedistanciamento social.

Em nossa Diocese, as Paróquias, Cáritas diocesana e Centro de Direitos Humanos, além de outras realidades eclesiais, como, por exemplo, a Casa do Menor, têm se mobilizado com propostas concretas para identificar as necessidades e oferecer acompanhamento e ajudas necessárias.

Que a pandemia desperte ainda mais entre nós a solidariedade necessária neste tempo, procurando tocar a carne de Cristo sofredor, dando esperança para que nossos irmãos e irmãs sigam caminhando neste deserto em que nos encontramos.

 

Artigo de Dom Gilson Andrade da Silva, bispo de Nova Iguacu e Vice-presidente do Regional Leste 1 – CNBB.