XXXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM

 

 

Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo
Mt 25,31-46

Caros irmãos e irmãs,

Celebramos neste domingo a solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo, instituída pelo Papa Pio XI no Ano Santo de 1925, para recordar o XVI centenário da profissão de fé elaborada pelo Concílio de Nicéia. Este mesmo Concílio proclamou que Jesus é “Filho unigênito do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por ele todas as coisas foram feitas…”. Naquela ocasião, o Papa marcou a solenidade para o domingo antes da festa de Todos os Santos, para certificar que Jesus Cristo, rei e centro de todo o universo, é o centro e o coroamento da multidão dos santos. Na reforma litúrgica feita em decorrência do Concílio Vaticano II, a festa foi remanejada para o último domingo do ano litúrgico, ainda com o sentido de glorioso coroamento. Nesse contexto, o início e o fim do ano litúrgico se entrelaçam de modo profundamente teológico: começamos o ano litúrgico preparando os nossos corações para acolher o “Menino” que, na verdade, é “Rei”; terminamos o mesmo ano litúrgico celebrando a realeza do Ressuscitado e esperando a sua segunda vinda como “Rei dos séculos”. Do início ao fim do ano litúrgico é, na verdade, a realeza do Senhor Jesus que nos é recordada.

O texto do evangelho nos apresenta Jesus como o Filho do Homem, um título Messiânico, tendo como referência o Livro do profeta Daniel (cf. Dn 7,13-14). O Filho do Homem é identificado como o enviado de Deus para ser o Salvador do mundo, vindo na condição humana. Os judeus daquela época eram bem familiarizados com o termo e a quem se referia. E Jesus é o único a quem foi dado o poder, a glória e o reino. Quando Jesus usa esse termo, ele está se referindo a si mesmo e se identificando como o próprio Messias.

O início do evangelho (v. 31-33) nos mostra Jesus, como o Filho do Homem, sentado no seu trono, a separar as pessoas umas das outras “como o pastor separa as ovelhas dos cabritos”. Esse separar lembra o modo de agir do pastor palestinense que, ao cair da noite, costumava separar as ovelhas dos cabritos. Esse cuidado do pastor era necessário, já que, durante as noites frias da Palestina, os cabritos precisavam de mais calor do que as ovelhas e, por isso, o pastor os coloca no lugar mais aquecido do curral. Aqui as ovelhas representam os justos e são colocadas do lado direito, os cabritos do lado esquerdo, representando os condenados. O motivo dessa divisão é, certamente, porque para o redator, as ovelhas são consideradas como os animais mais valiosos. O tema das ovelhas e os cabritos é, provavelmente, uma reminiscência do livro do profeta Ezequiel (Ez 34,11-12.15-17), tema da primeira leitura.

O momento da morte, hora do julgamento, é então comparado ao declinar do dia. Jesus virá em pessoa, revestido de sua dignidade real e como Senhor da história e Juiz do mundo. O texto apresenta em seguida dois diálogos. Um, entre o rei e as ovelhas que estão à sua direita (v. 34-40); outro, entre o rei e os cabritos que estão à sua esquerda (v. 41-46). No primeiro diálogo, o rei acolhe as ovelhas e convida-as a tomar posse da herança do Reino; no segundo diálogo, o rei afasta os cabritos e os impede de tomar posse da herança do Reino. Por quê? Qual é o critério que o rei utiliza para acolher uns e rejeitar outros?

O acento de Jesus é colocado sobre o homem em suas necessidades. Observa-se a identificação do juiz com os necessitados: Tive fome…, tive sede…, era peregrino…, estava nu…, adoeci…, estive na prisão…” (v. 35-36). Diante da pergunta admirada dos justos: “Quando te vimos com fome…?” (v. 37), o rei responde-lhes em uma afirmação solene: “Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos a mim o fizestes” (v. 40). A fundamentação da condenação é construída justamente pelo fato de os condenados deixarem de realizar as obras que caracterizavam os eleitos. A mensagem é esta: Todo aquele que se fechar em si mesmo e se omitir de socorrer e servir o seu irmão necessitado age contra a vontade de Jesus. E o próprio Filho de Deus, tornou-se homem e se fez servo dos mais pequeninos dos seus irmãos. Para ele, reinar é servir! E o que ele nos pede é que possamos segui-lo por este caminho: servir, estar atento ao clamor dos necessitados.

Esta passagem do evangelho quer nos mostrar que ninguém pode negligenciar o amor aos irmãos, não podemos ser indiferentes ao sofrimento dos desprotegidos. Um dos pormenores mais sugestivos é a identificação de Cristo com os famintos, os abandonados, os pequenos: todos eles são membros de Cristo e não os amar é não amar Cristo. A mensagem é esta: o egoísmo e a indiferença para com o irmão não têm lugar no Reino de Deus. E o mais terrível é a pena que está incluída nas palavras de Jesus: “Afastai-vos de mim”. Por isso, tenhamos sempre consciência de que tudo que fizermos ao nosso próximo, imagem de Deus, aparecerá no último dia. Pelo bem praticado, será grande a nossa recompensa: estar com Deus. Em última análise, é esse o critério que irá decidir a nossa entrada ou a nossa exclusão no Reino de Deus.

Pode-se observar o laço indissolúvel que Jesus estabelece entre a fé e o amor aos mais indefesos e desprotegidos. Mesmo os “benditos” do Pai, chamados a receber o Reino, ficam espantados, porque fizeram o bem, sem saber a quem. Eles descobrirão, finalmente, na luz de Deus, o rosto de Cristo, que se escondia no mais pobre, no desfigurado e desconhecido, naquele que encontraram pelo caminho. Para o cristão, a prática das obras de misericórdia, deriva, antes de mais, da sua relação autêntica com Jesus!

Mas podemos perguntar por que o Senhor Jesus se baseará no bem feito ao próximo? E por que justamente aos famintos, aos nus, aos estrangeiros, aos sedentos, aos doentes e aos prisioneiros? Certamente porque estas categorias resumem o que nós somos e o que Cristo fez por nós. Cada um de nós é um faminto, um nu, um estrangeiro, um doente e um prisioneiro. Somos famintos e sedentos de justiça, nus em virtude do pecado, estrangeiros nesse mundo, doentes e prisioneiros das nossas paixões. Mas Cristo nos visita e cuida de todas essas necessidades. Nós, se queremos entrar na vida eterna, devemos nos tornar semelhantes ao Cristo, e isto se dá de forma sublime quando servimos ao próximo como ele mesmo nos serve, pois também ele veio “para servir e não para ser servido” (Mt 20,28).

Na vida de São Francisco de Assis há um episódio muito expressivo. Na fase da sua conversão, ele se encontrou com um leproso no campo. Depois de vencer o receio, desce do cavalo, dá a esmola pedida e beija o doente. E ao sair, volta o seu olhar para o leproso para despedir-se, mas não vê mais ninguém, porque o leproso era o próprio Cristo que fora ao seu encontro. É Cristo que se identifica com os mais pobres e necessitados. Não há conversão verdadeira, isto é, não seremos verdadeiros discípulos de Cristo e “benditos do Pai” (v. 34), se não tivermos o coração e as mãos abertas para os necessitados.

Fazer o bem ao irmão é fazer o bem a Cristo. O irmão é uma graça de Deus, que nos abre a porta do Céu, pois fazemos o bem a nós mesmos, quando realizamos algo em prol do outro. Em outras palavras, a salvação vem pelo nosso próximo. Cada doente, cada necessitado, merece o nosso respeito e o nosso amor, porque, através deles, Deus nos indica o caminho para o céu. E o bem feito ao nosso próximo será como o bem feito ao próprio Cristo.

Por isto, podemos dizer que a realeza de Cristo está na linha do serviço. É preciso colocar em prática o mandamento novo do amor. E o amor ao irmão é, portanto, uma condição essencial para fazer parte do Reino. Devemos estar conscientes de que o Reino de Deus está no meio de nós; a nossa missão é fazer com que ele seja uma realidade viva e presente no nosso mundo.

Tenhamos consciência que a meta final da nossa caminhada é o Reino de Deus, uma realidade de vida plena e definitiva. E podemos perguntar: Como é que aí chegamos? É São Paulo que nos responde na segunda leitura: “Identificando-nos com Cristo”. No dia do juízo final possamos todos nós ouvir este convite de Jesus: “Vinde, benditos de Meu Pai, recebei em herança o Reino que para vós está preparado desde a criação do mundo… ” (Mt 25, 34.36).

Peçamos a Virgem Maria que nos ajude a seguir Jesus, nosso Rei, como ela fez, e a dar testemunho dele com toda a nossa existência e nos conceda acolhê-lo como Senhor da nossa vida, para cooperar fielmente no advento do seu Reino de amor, de solidariedade e de paz. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ