Padre Mario França: um dom para os outros

A Paróquia Ressurreição, em Copacabana, celebrou os 50 anos de sacerdócio do padre Mario de França Miranda, no dia 28 de julho. A missa em ação de graças foi presidida pelo Cardeal Orani João Tempesta e contou com a presença de muitos sacerdotes, entre eles o pároco, monsenhor José Roberto Devellard.

Nos tempos de infância

Desde muito jovem, Mario sempre viu nos pais um exemplo de fiéis cristãos. Morador de Botafogo, o casal ainda tinha mais oito filhos. A mãe, Maria Lydia de França Miranda, trabalhava como professora de educação infantil, enquanto o pai, Sidney Suzano de França Miranda, era um médico dedicado à causa dos mais pobres e necessitados.

Assim que chegou o período estudantil, Mario ingressou no Internato Coração Eucarístico, por onde muitos padres já passaram. Quando chegou ao quinto ano, foi transferido para o Colégio Santo Inácio. Ele mal sabia que o padroeiro da escola retornaria em sua vida anos depois.

Porém, ainda nessa fase, a profissão do pai era o que mais o chamava a atenção. “Meu pai era muito sensível aos mais pobres. Ia às favelas, subia os morros, dava tudo o que tinha. Isso sempre me entusiasmou”, afirmou.

De acordo com ele, uma das visitas que realizou com o seu pai marcou a sua vida. “Lembro-me de tê-lo acompanhado numa visita a uma família. Quando chegamos, todos choravam muito e havia uma menina deitada. Porém, minutos depois aquela família já estava rindo. Logo imaginei que ser médico era algo interessante, pois, dessa forma, era possível deixar as pessoas felizes”, recordou.

Mas as aulas prosseguiam no Colégio Santo Inácio, onde a preocupação dos meninos, amigos de Mario, era somente uma: “Fugíamos de um padre que ficava no colégio, pois ele enxergava a vocação sacerdotal em todos”, disse, entre risos.

O encontro

Aos 18 anos, só havia espaço para um pensamento na cabeça do jovem: passar no vestibular para medicina. E para realizar o sonho, ele estudava constantemente. Porém, Deus possui múltiplas formas de mostrar aos Seus filhos os desejos de Seu coração. Com Mário, não foi diferente.

Justamente num dia em que estava muito cansado, após estudar por horas química orgânica, o jovem decidiu ir à rua comprar uma revista para se distrair. Acostumado com a imensidão de livros que seu pai continha, percebeu que havia algo novo na estante do escritório do médico. “O livro se chamava “A montanha dos sete patamares”, de Thomas Merton. Resolvi folheá-lo para ver se haviam diálogos, do contrário, considerava chato”, contou, rindo.

Na obra, o autor narrava, através de 500 páginas, a história de sua conversão ao catolicismo, ainda na juventude, num período em que a Igreja Católica dava passos em direção à renovação pelo Concílio Vaticano II. Mario iniciou a leitura, parou para as refeições e terminou às 3h da madrugada do dia seguinte. Ao fim, ele só tinha apenas uma frase: “Eu vou ser padre”.

Desse dia em diante, ele nunca teve dúvidas quanto à vocação. Porém, foi nesse momento que teve início uma série de problemas. “Merton era trapista e não havia essa ordem no Brasil”, disse. O jeito foi conversar com um padre amigo chamado Leni Lopes, que disse ao jovem: “Trapista não tem, mas há uma ordem bem parecida e próxima que são os cistercienses”, contou Mario.

Padre Leni Lopes sugeriu que Mario acompanhasse outro jovem que iria passar a Semana Santa em um mosteiro, em Itaporanga, cidade que fica na fronteira entre São Paulo e Paraná. “Não havia estrada, era apenas um trem que levava 15 horas para chegar ao local. Quando cheguei, me deparei com um mosteiro enorme dentro de uma fazenda. Eram 40 irmãos e 15 sacerdotes”, destacou.

Mas a adaptação foi difícil. “Eles dormiam às 18h30, enquanto eu estava acostumado a deitar às 23h30, e ainda acordavam às 3h30 para rezar as Laudes, às 4h. Percebi que aquela não era a minha vocação”, disse. Ao retornar, Mario visitou a Companhia de Jesus, no Rio de Janeiro, ordem fundada por Santo Inácio de Loyola, o mesmo padroeiro do colégio nos tempos de criança.

Nesse processo, o amor pela medicina ainda era forte, só não mais que o chamado ao sacerdócio. “Debatia com o padre jesuíta porque eu queria me formar em medicina e depois ser padre. Ele disse que eu perderia a vocação e que o Código de Direito Canônico não permitia que um padre exercesse a função de médico. Isso foi muito difícil, pois eu amava a medicina”, ressaltou.

Durante todo esse período, Mario permaneceu em silêncio, sem contar nada a ninguém sobre sua vocação. O comunicado ao pai aconteceu três dias antes de ingressar à ordem, à mãe, somente às vésperas da partida. Ambos tiveram um susto, mas apoiaram a decisão do jovem.

A Companhia de Jesus

Assim que chegou à Companhia de Jesus, o mestre dos noviços, chamado padre Cardoso, um português que estava no Brasil há anos, percebeu que Mario teria problemas na adaptação, haja vista que ele não havia se preparado para ingressar à ordem, ao contrário dos demais jovens, que já estavam em adaptação há dois meses. “Ele disse que eu poderia interromper, se quisesse. Mas disse que não, que queria ir até o fim”, pontuou.

Mario esteve durante dois anos como noviço, além de mais um ano de humanidade. Depois, em 1960, foi enviado a Nova Friburgo, onde cursou as faculdades de filosofia e letras. Além disso, estagiou no Seminário Menor dos Jesuítas, no Rio, e, em 1964, foi enviado para cursar teologia na Universidade de Innsbruck, na Áustria.

No dia 18 de março de 1967, ainda na Áustria, Mario foi ordenado diácono. E no dia 29 de julho do mesmo ano, Mario, junto ao padre Pedro Magalhães Guimarães Ferreira, foi ordenado no Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, a pedido de ambos, pela imposição das mãos do então bispo auxiliar Dom Castro Pinto.

A missão

Após a ordenação, padre Mario retornou à Áustria. Logo em seguida, foi chamado para atuar no Colégio Brasileiro, em Roma. Porém, decidiu não permanecer no local para se dedicar mais à tese sobre a Teologia da Trindade, que seria apresentada em breve.

Então, o sacerdote foi enviado para ser capelão de um grupo de irmãs idosas que viviam na pequena cidade de Münster, a menor na Alemanha. Porém, o local ficava, exatamente, na rota dos aviões que explodiam em Berlim. “Eu me divertia muito com as irmãs. Mas, por vezes, ao ouvir uma rajada de avião, corríamos para o porão. Isso acontecia até quatro vezes por noite, o que deixou muitas irmãs perturbadas”, recordou.

O padre ainda acrescentou que, nesta cidade, havia uma biblioteca imensa, com livros muito antigos e valiosos, e que, por isso, muitos franceses iam ao local para ter acesso às obras.

Temendo que a cidade fosse bombardeada, o que realmente aconteceu, “os alemães construíram um imenso porão abaixo do prédio da biblioteca; guardaram os exemplares em ordem nas prateleiras e fecharam o local. Ao fim da guerra, não sobrou nada do prédio, mas os livros foram encontrados intactos”, frisou.

Padre Mario ainda foi membro da Comissão Teológica Internacional do Vaticano, entre 1992 e 2002; assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) durante a Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos de 1983 na Assembleia Especial para a América, em 1997, e assessor teológico na Comissão da Redação da IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, realizada em Santo Domingo, em 1992, e na V Conferência, em Aparecida, em 2007.

Além disso, padre Mario é autor de mais de cem artigos publicados sobre diversos temas e, ainda, de 15 livros de teologia, sendo o mais recente “A reforma de Francisco”, uma coletânea que explica as tomadas de decisões do Pontífice.

As publicações já o renderam reconhecimento, como o Prêmio Ratzinger, em 2015. Segundo ele, “colocaria 50 nomes à frente do meu que mereciam esse prêmio. O objetivo era criar uma fundação para publicar as obras do Cardeal Ratzinger. Com o lucro das vendas, pedi para que a metade das vendas fosse dada aos pobres; a outra parte podia ser usada como eles quisessem, seja para difundir livro, organizar congressos. Era a primeira vez que uma pessoa do Hemisfério Sul recebia a premiação”, completou.

Atualmente, padre Mario atua como cooperador na Paróquia Ressurreição, onde está há mais de 20 anos. Sua chegada à comunidade aconteceu após uma visita do então padre José Roberto Devellard, que era amigo do novo superior dos jesuítas em Roma. Dessa forma, como a paróquia era muito grande, o sacerdote necessitava de ajuda durante a Semana Santa.

Foi então que padre Mario retornou ao Brasil e, sempre no período da Semana Santa, ele saía de Minas Gerais em direção ao Rio. “Passei muitas Quintas-Feiras Santas sem comungar porque fiquei o dia inteiro atendendo as confissões. Meu recorde foram 12 horas. Muitas pessoas passavam anos sem vir à Igreja, e quando vinham, eu precisava ajudá-las. Em 1993, padre Devellard decidiu me dar uma missa aos domingos, às 7h30, porque eu precisava estudar. Celebro essa missa até hoje”, comentou.

Viver para o outro

Ao longo dos últimos 50 anos, padre Mario teve a oportunidade de vivenciar diversas experiências e mudanças na Igreja através da postura dos Pontífices posteriores a São João Paulo II. De acordo com ele, “Bento foi um grande teólogo, ajudou muito a Igreja. Percebeu que estávamos dispersos, então escreveu sobre a fé, a esperança e a caridade. Ele é uma pessoa profundamente espiritual. Carregou uma cruz muito pesada e optou por renunciar, para o bem da Igreja”, pontuou.

Quanto a Francisco, ele disse que “a surpresa de ter um Pontífice jesuíta foi boa, pois ele está em sintonia com aqueles que o elegeram. Ele percebeu que a Igreja precisava de reforma, descentralização, dar mais voz ao Terceiro Mundo e aos pobres. O Papa Francisco, por ter vivido na periferia, tem uma experiência pastoral muito valiosa. Ele conhece as limitações do ser humano”, complementou.

Porém, quanto à sua experiência vocacional, ele disse: “o que eu experimentei foi um Deus paciente, um Espírito Santo que nos guia, mesmo que não percebamos. É Deus quem nos conduz. A Igreja quase sempre nos decepciona, porque é feita de humanos, frágeis, mas Jesus Cristo nunca me decepcionou. Nossa fé em Cristo nunca nos abandona. Toda a missão de nosso Senhor foi viver para o outro. Então, o que de fato realiza o ser humano é se aproximar de Jesus, fazer de sua vida um dom para os outros”, finalizou.

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Fonte:  Site da Arquidiocese do Rio de Janeiro

Fotos: Divulgação