Vida em abundância

Dom Edney Gouvêa Mattoso

 Bispo  de Nova Friburgo (RJ)

 Caros amigos, o Tempo Pascal recorda-nos o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, sem o qual “seria vã a nossa pregação e vã a nossa fé” (1Cor 15, 14). De fato, a Ressurreição de Cristo é a maior de todas as obras da nossa salvação, como canta solene proclamação da Páscoa: “Ó Deus, quão estupenda caridade vemos no vosso gesto fulgurar, não hesitais em dar o próprio Filho para a culpa dos servos resgatar”, e afirma o Evangelho de São João: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. (Jo 3, 16)

Entretanto, para acolher os frutos desta redenção é necessário aderir ao Deus verdadeiro e abrir-se aos meios que Ele mesmo instituiu para nossa salvação.

Hoje, vivemos uma cultura que tende ao imediatismo e a autossuficiência. Por isso, é tão urgente esclarecer que Deus quis que a sua graça salvadora chegasse a até nós por mediações humanas. É comum ouvirmos: “o importante é crer em alguma coisa” ou “religião não salva ninguém”, mas, por trás destas afirmações, provavelmente está um culto a um falso deus, que é como um ídolo construído com as próprias ideias e vontades de seu artífice, feito à sua imagem e semelhança.

Cristo ressuscitado não é uma engenhosa invenção, mas é Deus verdadeiro. Por isso, sua presença contrariará muitas vezes nossa vontade, ideias ou planos, e, precisamente deste modo, Ele nos salvará. Na verdade, o Senhor precisa transformar-nos, reformar-nos por sua Palavra, mudar-nos pelos Sacramentos da fé, e reconciliar-nos por seu Sangue redentor. Um “deus” que só confirma os desejos do fiel certamente é falso, uma invenção da imaginação.

A vida em plenitude que Jesus Cristo nos prometeu advém de nossa união com Ele: “Eu sou a videira, e vós, os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5). Esta relação se manifesta visivelmente pela unidade da fé recebida dos apóstolos; unidade de culto, sobretudo na celebração dos Sacramentos; e unidade aos pastores legítimos autorizados pela sucessão apostólica. (Cfr. Catecismo, 815 e 830)

Na mesma medida em que a vida se perde pelos pecados, que encurvam o homem sobre si mesmo, ela se conserva e é abundante na medida em que se apoia em Cristo. “Pois quem quiser salvar sua via a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará. De fato, que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida? ”. (Mt 16, 25-26)