TRÊS REFLEXÕES PARA A CONVERSÃO PESSOAL, PASTORAL E ECOLÓGICA

  1. A VOLTA DA UNIDADE COM DEUS E COM A PRÓPRIA CONSCIÊNCIA

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   O afastamento de Deus, a falta de oração, a vaidade, a confiança demasiada nas próprias forças e capacidades, a frieza e indiferença ao projeto de Deus. Tudo isso faz com que nos percamos em nossos próprios planos e interesses e coloquemos pouco a pouco a Palavra de Deus em segundo lugar. Aí servimos não mais ao Senhor, mas a nos mesmos. Sem a referência da verdade de Deus, nos desfiguramos, desintegramos nossa personalidade, quebramos a nossa integridade, desrespeitamos a nossa dignidade, violamos a nossa própria consciência.

   É preciso voltar à comunhão com Deus, com humildade, pela entrega na oração, agradecendo pelos dons e capacidades, bebendo da misericórdia divina, harmonizando o coração, reequilibrando a razão interior para ser verdadeiro discípulo e missionário, com a dignidade de filhos de Deus reluzente, com uma só face, na paz de quem segue o Mestre que é o Caminho, Verdade e Vida. Peçamos perdão ao Senhor por nos afastarmos da Sua Luz e nos enfraquecermos. Por nos distanciarmos da Sua Força e nos enchermos de trevas e confusão. Por nos desintegrarmos, sem a Sua verdade, enchendo-nos de mentiras e justificativas para nossas vaidades.

  1. A VOLTA À UNIDADE COM OS IRMÃOS

    Quando nos fechamos a Deus, perdemos a nossa referência ética, nos escravizamos ao nosso próprio egoísmo e queremos virar o centro de tudo, relativizando os princípios morais, conforme a nossa conveniência. Isto, é claro, nos afasta também dos outros. Pois,sem vermos Deus como Pai, já não os vemos como irmãos, mas simplesmente como “concorrentes” que devem ser derrotados. Ou por nos sentirmos maiores ou melhores, os vemos  apenas como peças manipuladas para o aumento do nosso PODER, do nosso PRAZER ou nosso DINHEIRO.

     Esta tríplice idolatria já é acusada na III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano( CELAM) em PUEBLA,em 1979. E a realidade de uma multidão de excluídos e da indignidade da miséria de muitos lázaros no continente latino americano, com enormes desigualdades sociais, já havia sido apontada na II Conferência em MEDELLIN , EM 1968. Tudo fruto da ambição, da soberba, da falta de amor ao próximo, pela falta de amor a Deus e de reconhecimento de sua vontade como verdade da ética pessoal e social.

     Também o fechamento em si mesmo, nos torna insensíveis à cultura dos outros, nos achando “superiores”, na autoidolatria de nossa linguagem, nossas expressões e valores, querendo impô-los aos irmãos. É o caso das discriminações culturais, étnicas, por motivos físicos, sociais,etc… Menospreza-se o negro, o indígena, o pobre, a pessoa com deficiência… E estamos, muitas vezes, bloqueados no coração e na razão para a inculturação do Evangelho, ou seja, a evangelização a partir das “sementes do Verbo” , das riquezas e valores próprios do Bem de cada cultura, na autêntica promoção humana . Sobre isto nos fala a IV Conferência de SANTO DOMINGO, em 1992. Na linha do discipulado missionário, a partir de Cristo, modelo perfeito de amor e doação ao próximo,o qual deve provocar em nossas comunidades uma verdadeira conversão pastoral, como apresenta a V Conferência de APARECIDA, em 2007.  Peçamos perdão ao Senhor e mostremos a Ele que queremos voltar à unidade com os nossos irmãos, na solidariedade, no amor fraterno que nos leva a uma autêntica opção preferencial pelos mais pobres e o abandono de todas as vaidades e ambições. Queremos ser discípulos missionários, despojados de toda ilusão de poder, de toda embriaguês dos prazeres e de todo apego ao dinheiro. Queremos compreender os valores de cada cultura,de cada irmão, com a humildade e a compaixão de Cristo, aproveitando de cada realidade as sementes divinas espalhadas na Sabedoria da criação, livres de toda soberba, preconceito ou sentimento de superioridade em relação aos outros.

  1. A VOLTA À UNIDADE COM A NATUREZA,A CASA COMUM

   O pecado do homem de virar as costas para Deus, criou desordem não só na consciência, na integridade pessoal, não só na convivência social e relacionamento com o próximo, gerando desigualdades e injustiças , mas também causou um desequilíbrio na sua própria relação com a natureza. O ser humano,saindo da harmonia do Criador, perdeu também o senso de respeito e integração com a casa natural. As agressões cresceram à vegetação,às águas ,aos animais, ao ar, à camada de ozônio,aos ecossistemas. Do egoísmo cego surge um galopante desmatamento , uma inconsciente degradação do solo, queimadas, poluição volumosa, contaminando e comprometendo os recursos hídricos, envenenando o are causando a maior incidência de raios solares e o aquecimento global. Avança a caça irracional , a pesca predatória, levando a extinção das espécies e a desorganização, o desequilíbrio ecológico. È o pecado de quem olha só para o seu interesse e para o seu imediato lucro ou vantagem, não se importando com os danos ao meio ambiente e consequentemente aos seres humanos.

   Todos estes vários cenários  estão indicados com profundidade e riqueza na Encíclica Social do Papa Francisco , a LAUDATO SI, como em diversas campanhas da fraternidade da CNBB , recordando e conscientizando que é preciso preservar o que é de todos,a casa comum, a água, a terra, os biomas, especialmente a Amazônia… e no centro da Ecologia , o ser humano, totalmente integrado a ela, os indígenas, as populações ribeirinhas, os quilombolas,os pobres e miseráveis,os privados dos bens naturais, sedentos e famintos, os excluídos do sistema capitalista materialista , que devem ser resgatados e promovidos em sua dignidade de imagem e semelhança de Deus, filhos do Criador,irmãos do Redentor, templos do Espírito Santo.

   È necessário criar uma generalizada consciência de responsabilidade ecológica, como um ato de conversão, de volta à sintonia com o Plano da criação no respeito à ordem natural.Preservar a imensa riqueza da biodiversidade. Combater as agressões diversas. Promover a educação ambiental, como valorização e defesa da vida e da saúde de toda a comunidade social. Saber cuidar como o nosso irmão São Francisco da irmã Natureza, como sagrado sinal da bondade e Graça do Deus-Amor.

  È importante protegermos a Amazônia grande reserva de vida da humanidade. Mas, também, devemos identificar as “nossas amazônias” bem perto de nós, na nossa cidade e região, os rios , as bacias, as matas, os impactos ambientais de empreendimentos industriais, muitas vezes desastrosos, as campanhas que devemos fazer para manter a casa comum com todo equilíbrio para a vida e saúde de todos. Peçamos perdão ao Senhor pelas vezes em que nos omitimos na defesa da vida e da ordem natural, causando assim um grande mal a tantos irmãos, permitindo que a morte prevalecesse. Pelas vezes em que mesmo praticamos destruição ao meio ambiente ,colaborando com projetos irresponsáveis no sentido ecológico. Pelas vezes em que nos esquecemos do ser humano ,não valorizando e protegendo a sua dignidade e vida desde a concepção até a morte natural, não lutando por seus direitos e integridade.

   Queiramos a conversão total, não só um ponto ou outro. Busquemos a libertação integral , até porque não se pode separar uma postura da outra.São uma trindade. É na mudança da mentalidade e atitude fundante da estrutura pessoal que iremos reformar e transformar o social , num espírito de comunhão e integração com toda a natureza criada. No respeito ao Plano do Criador e seguindo o modelo do Salvador ,no sopro do Espírito.

 

Pe Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça 

Assessor Eclesiástico  da Pastoral da Comunicação da Diocese de Nova Friburgo