HOMILIA PARA A QUINTA-FEIRA DA CEIA DO SENHOR

(Ex 12,1-8.11-14; 1Cor 11,23-36; Jo 13,1-15)

Ao cair da tarde, Ele pôs-se à mesa com os doze (Mt 26,20)

Introdução

Caros irmãos e fiéis.

Iniciamos com esta Missa da Ceia do Senhor as celebrações do Tríduo Sacro da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

Foi este o pedido que Jesus fez a Pedro e a João: Ide preparar-nos a Páscoa para comermos (Lc 22,8). E foi justamente ao cair da tarde da primeira quinta feira santa da história que Jesus pôs-se à mesa com os doze para a Última Ceia (Mt 26,20).

Quantos símbolos, quanta riqueza na celebração desta tarde: a Santa Cruz exaltada no canto de entrada; a despedida dos sinos (a partir de agora em silêncio até a Vigília Pascal na noite do Sábado Santo); o lava-pés; no final, as Sagradas Espécies levada em procissão para a Capela do Santíssimo.

  1. A Liturgia da Palavra

Ouvimos na primeira leitura como era celebrada a Páscoa Antiga: “Cada um tome um cordeiro sem defeito por família…, e a comunidade reunida o imolará ao cair da tarde. Comereis a carne nesta mesma noite. É a Páscoa, isto é, a ‘Passagem’ do Senhor. Será uma festa memorável que haveis de celebrar por todas as gerações”.

Meus irmãos e fiéis esta passagem é emblemática em todo o Antigo Testamento!
O Senhor Deus pedia que cada família tomasse um cordeiro sem defeito para matá-lo ao cair da tarde, e fosse a carne consumida. Era a preparação da Páscoa: o Senhor passaria para também fazer o povo sair da escravidão do Egito à liberdade na Terra Prometida.

Contudo, esta Páscoa / Passagem do Senhor era figura de uma outra Páscoa.
Vimos Deus pedir ao povo que imolasse um Cordeiro como preparação da Páscoa.
Agora é Jesus que pede aos discípulos: Ide preparar-nos a Páscoa para comermos. Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal, antes de sofrer (Lc 22,8.14).

Que extraordinária mudança em relação à Páscoa antiga!
O cordeiro morto em sacrifício não seria mais um animal, mas Jesus mesmo, o Cordeiro de Deus que veio redimir a humanidade, com o seu sangue derramado na cruz.

Assim, apresentando na Última Ceia o pão e o vinho como seu Corpo e seu Sangue, Jesus antecipou o seu próprio sacrifício, e instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio.
Fazei isto em memória de mim: aqui nascia o sacerdócio!
Nasceu na Última Ceia, pois nela Jesus pediu – ‘fazei isto em memória de mim’ (como recordou São Paulo na 2a leitura).

E assim o homem de qualquer tempo e lugar pode encontrar Jesus como alimento para a sua alma, amor para o seu coração, força para o seu caminhar.

Rezemos e agradeçamos aos sacerdotes. Tirados do meio dos homens, para que os homens de qualquer tempo e lugar encontrem Jesus na mesa do Altar, como alimento para a alma, amor para o coração, força para o caminhar.

2.O Lava pés
Ouvimos no Evangelho o lava pés.
O gesto de lavar os pés desconsertou os discípulos: Senhor, tu me lavas os pés? Lavando os pés dos discípulos, Jesus demonstrou seu amor por todos os homens!

Ele não apenas lavou os pés.
Deixou-nos também um exemplo de humildade, uma lição de serviço, um gesto de doação, e pediu que fosse imitado: Deixei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais.

Senhor, tu, lavar-me os pés? Os pés, nossos pés!
Como eles são indispensáveis: servem a qualquer iniciativa ou movimento!

Os pés possibilitam o homem ficar de pé, andar, correr: quase um milagre, pois não há adequada proporção entre os pés e o resto do corpo.

Nossos pés. Eles refletem agilidade, harmonia, leveza.
Nos pés da bailarina, arte e lirismo; destreza e habilidade, nos pés dos atletas!

Nossos pés. Quando chegamos a um ambiente, eles entram primeiro. Uma pessoa revela um pouco de si pelo modo de caminhar e de como pisa o chão.

Os pés são fundamentais para duas realidades no caminhar da vida: chão e horizonte!
Chão! Precisamos saber onde estamos pisando! Ter consciência do ambiente, da atmosfera e da natureza do mesmo; da busca, do prosseguir, do parar…

Horizonte! Tê-lo diante dos olhos para saber do nosso limite e das metas a atingir! Sem noção do horizonte a alcançar, podemos nos perder pelo caminho ou entrar na primeira estrada que apareça!

Deus, na sarça ardente, pediu a Moises tirasse as sandálias dos pés, pois a terra em que pisava era uma terra santa (Ex 3,5). Que cena grandiosa: Moisés com os pés no chão, tendo Deus como o horizonte do seu olhar – Deus, que lhe falava face a face!

O Profeta Isaias fala da beleza dos pés do mensageiro que anuncia a paz, proclama boas novas e anuncia a salvação (Is 52,7).
Este mensageiro foi Jesus de Nazaré que percorreu / andou / pisou montes, vilas, aldeias, cidades… Entrou em tantas casas comunicando alegria, salvação, esperança, paz!

Os 12 apóstolos que terão hoje seus pés lavados são 12 alunos do nosso CSB – um dia especial na vida de vocês, meninos!

Sintamos hoje também todos nós os nossos pés lavados por Jesus, e tiremos as sandálias do medo, das inquietações, das incertezas. Com os pés lavados e fixos no chão, sigamos sem medo do presente e do futuro, descortinando os horizontes que Deus for apresentado na nossa jornada e no nosso caminhar.

Conclusão
Após a oração final levaremos em procissão as espécies consagradas à Capela do Santíssimo – serão consumidas amanhã na solene Ação Litúrgica das 15h00min.

Esse breve rito oferece a ocasião de fazermos companhia a Jesus que entrará em agonia e profunda solidão, antes do seu sofrimento e morte.
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A adoração que fizermos hoje até a meia noite seja a nossa participação nos sofrimentos de Cristo, também a ocasião de contemplarmos o seu profundo amor por nós, a redenção que nos trouxe!
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Sim, tendo amado os seus que estavam no mudo, Jesus amou-os até o fim.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

Dom Abade Filipe

Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro